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20 de novembro, 2006 - 08h46 GMT (06h46 Brasília)

Pablo Uchoa
De Londres

Violência mata duas crianças negras para cada branca no Brasil

Para cada criança branca vítima da violência urbana no Brasil, duas outras negras são mortas, alerta o Fundo para Infância e Adolescência (Unicef).

A estatística faz parte de um levantamento feito pelo braço brasileiro da agência da ONU para chamar atenção sobre a dupla fragilidade das crianças negras do país.

Usando dados do Programa da ONU para o Desenvolvimento (PNUD), a Unicef traçou um desenho sombrio de como o racismo afeta futuras gerações de brasileiros e compromete “setores-chave do desenvolvimento”, nas palavras da oficial de projetos da agência, Helena Oliveira Silva.

Segundo o PNUD, a taxa de homicídios registrada entre negros foi o dobro da registrada entre brancos no ano passado. Em 2000, de acordo com o Datasus, em média 14 adolescentes entre 15 e 18 anos morreram por dia no Brasil – destes, 70% eram negros.

O levantamento mostrou também que as crianças negras estão em pior situação na escola e no mercado de trabalho.

Datas

Os dados são divulgados no dia em que duas datas importantes coincidem no Brasil. Nesta segunda-feira, 20, diversos Estados comemoram o Dia da Consciência Negra, aniversário da morte de Zumbi de Palmares.

No mesmo dia, entidades de todo o mundo marcam o aniversário da Convenção sobre os Direitos da Criança, adotada pelos 192 países da ONU.

Mas, se a situação da criança melhorou no Brasil nos últimos anos – com a melhora de índices de escolarização e a queda nas taxas de mortalidade – a análise por raça mostra que os bons ventos não sopraram para todas as crianças.

A oficial de projetos da Unicef afirmou que 65% dos 2,6 milhões de adolescentes de 10 a 15 anos trabalhando no Brasil são negros.

Helena Silva disse que existem 500 mil crianças e adolescentes trabalhando como domésticas no Brasil. Cerca de 400 mil são meninas, e, destas, 98% são negras.

Na faixa dos 7 a 14 anos, são negras 500 mil das 800 mil crianças que estão fora da escola.

A proporção de crianças e adolescentes negros fora da escola é 30% maior que a média nacional, e o dobro, se consideradas apenas as crianças brancas.

“As crianças negras são as que têm sofrido as conseqüências mais perversas do modelo de desenvolvimento brasileiro”, afirmou a porta-voz da Unicef.

“Se seguirmos com uma proposta de desenvolvimento econômico e social que não reduza desigualdades – de raça, de gênero, de etnia – vamos perceber um impacto muito negativo no futuro.”

Ela destacou a gravidade desses problemas entre crianças indígenas (veja quadro ao lado).

No país, 49,7% das crianças indígenas não têm acesso à água, contra 24,9% das negras e 10% das brancas.

Ações afirmativas

A porta-voz da Unicef disse acreditar que o país conseguirá cumprir os objetivos relativos à infância entre as chamadas Metas do Milênio.

“Mas quem é que ficará para trás nestas metas?”, questionou Helena Silva.

Até 2015, o Brasil e os outros 191 países da ONU se comprometeram a garantir o ensino básico a todas as crianças, e reduzir, em dois terços com base em 1990, a mortalidade de crianças de até cinco anos de idade.

O problema é que, no Brasil, as crianças negras ainda tardam dois anos mais que as brancas para atingir o mesmo grau de escolaridade.

A falta de acesso ao exame pré-natal – realidade de cerca de 100 mil gestantes no país – é três vezes maior entre as mães negras que entre as brancas.

Para a Unicef, o Brasil precisa de programas de desenvolvimento infantil em comunidades quilombolas e em bairros pobres das grandes cidades, onde se concentram as crianças negras.

Helena Silva defendeu ainda ações afirmativas para aumentar o número de negros em posições importantes na sociedade - como o Congresso.

“A ação afirmativa não é contrária à universalização, e sim o contrário. A democracia racial no Brasil é um mito que existe com base na anulação de uma raça e de uma etnia”, ela afirmou.

“Corremos o risco de perpetuar um cenário árduo de extrema desigualdade, que naturaliza determinadas posturas, como a de que ser negro significa ser pobre, e que brancos têm mais chances na vida."