06 de novembro, 2006 - 14h41 GMT (11h41 Brasília)
Matt Frei
De Washington
A sentença de morte ao ex-presidente iraquiano Saddam Hussein dificilmente influirá nas eleições americanas desta terça-feira, quando milhões de americanos vão às urnas para renovar a Câmara dos Deputados, um terço do Senado e grande parte dos 50 governadores.
Antes de tudo, porque a sentença mal pode ser classificada como "surpresa" – passou a ser quase uma certeza inevitável tão logo se ergueram barricadas em Bagdá.
No entanto, todos os programas dominicais de televisão nos Estados Unidos começaram questionando se o momento da condenação levava a marca de Karl Rove, o principal estrategista de campanha do presidente George W. Bush.
Essa hipótese foi considerada absurda pelo porta-voz da Casa Branca, Tony Snow.
Quando veio, a resposta do presidente ao veredicto estava bem medida: tratava-se de um "marco" para a "jovem democracia do Iraque".
No entanto, este é pelo menos o quinto "marco" que testemunhamos no Iraque: antes, houve a queda da estátua de Saddam, a primeira eleição, a captura de Saddam, a segunda eleição e a Constituição.
Cada vez mais, a violência piorou, a paisagem se tornou mais sangrenta e a perspectiva de uma vitória ficaram mais distantes.
Opinião formada
Após três anos e meio, com a euforia se degenerando em agonia, a ampla maioria dos americanos já formou sua opinião sobre o Iraque, e o veredicto de domingo não mudará as percepções até terça.
A notícia poderia gerar alguma mudança nas pesquisas de opinião relativas a republicanos de pés de chumbo que atualmente se lamentam em meio a notícias negativas de déficit orçamentários, escândalos sexuais e mau gerenciamento da guerra do Iraque.
Poderia até mesmo fazer diferença marginal para cadeiras do Senado de alguns Estados, como o Missouri, Virginia e Montana, onde disputas acirradas podem seguir qualquer caminho.
Mas a decisão também convida à comparação entre a legislação da Justiça iraquiana e a terra sem lei dos esquadrões da morte que atuam nas ruas de Bagdá.
Vereditos amargos
Não bastasse isso, a condenação do domingo será seguida por outras, publicadas nesta segunda-feira em jornais do Exército, dos Marines, da Marinha e da Força Aérea. Elas pedirão a renúncia do secretário americano de Defesa, Donald Rumsfeld, alegando mau gerenciamento da guerra do Iraque.
Quando publicações internas – mais inclinadas à adulação – pedem a cabeça de seus chefes no meio de uma guerra impopular, é sinal de problema.
Seria necessário, portanto, um milagre para evitar que a Câmara dos Deputados seja tomada pelo "terremoto" de uma invasão democrata, o que pode ser uma grande mudança na política americana.
Se controlarem comitês da Câmara, os democratas garantem que vão abrir investigações sobre as justificativas, o gerenciamento e o financiamento da guerra.
E não se deve subestimar a sede de vingança que corre no Capitólio, o prédio do Parlamento.