03 de novembro, 2006 - 15h31 GMT (12h31 Brasília)
Daniel Gallas
Enviado especial a Montevidéu
A ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um momento de crise nas relações entre Uruguai e Argentina é um dos principais destaques da 16ª Cúpula Iberoamericana, encontro de chefes de Estado que começa nesta sexta-feira
em Montevidéu.
Lula telefonou para o presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, para se desculpar pela ausência, alegando que precisa descansar, por recomendação médica.
Segundo Vázquez, era possível perceber o cansaço do brasileiro pelo "tom de voz". Lula prometeu viajar ao Uruguai nos "próximos 20 ou 30 dias", disse o presidente uruguaio.
Além de Lula, outros sete chefes de Estado também não virão ao encontro de 22 países da comunidade ibero-americana, que neste ano discute as relações entre imigração e desenvolvimento. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, que era esperado em Montevidéu, não desembarcou na capital uruguaia junto com a delegação de seu país e deve ser outra ausência da cúpula.
É a edição da Cúpula Ibero-americana com menos chefes de Estado presentes, superando a de 2004, quando houve seis ausências. Não virão os presidentes de Peru, Panamá, Nicarágua, Guatemala, República Dominicana e Cuba. Raúl Castro, que assumiu as funcões de Fidel durante os problemas de saúde do presidente cubano, enviou o vice-presidente Carlos Lage para representá-lo.
"Sem diálogo"
Na véspera da cúpula, as relações entre Uruguai e Argentina chegaram "ao seu pior momento", segundo a edição de sexta-feira do jornal uruguaio El País, devido à disputa entre os países envolvendo a construção de uma fábrica de celulose no rio Uruguai, entre os dois países.
A Argentina divulgou nesta semana nota condenando a decisão uruguaia de permitir que a empresa finlandesa Botnia extraia mais água do rio Uruguai para a planta industrial na cidade de Fray Bentos. Durante a Cúpula realizada no Uruguai, moradores das cidades argentinas de Gualeguaychú e Colón voltaram a fechar pontes que ligam os dois países.
Um encontro entre Vázquez e o presidente argentino, Néstor Kirchner, foi descartado pelas chancelarias de ambos os países. "Com pontes cortadas, não há diálogo", disse Vázquez na quarta-feira. Kirchner chega nesta sexta a Montevidéu e deve manter encontros com os presidentes da Bolívia e do Chile. O contato com Vázquez deve se resumir aos encontros coletivos da cúpula.
Apesar do pedido uruguaio para que interceda na questão, o Brasil avisou que não tem planos de mediar o conflito e que vai apenas "exortar os dois lados", de acordo com entrevista do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, ao jornal argentino Clarín.
Mesmo com o encontro "esvaziado", grupos de esquerda prometeram fazer protestos pacíficos anti-globalização nesta sexta-feira próximos a Ciudad Vieja, região central de Montevidéu que está isolada para a cúpula.
No principal tema da pauta oficial, as imigrações, as questões a ser debatidas incluem a influência dos movimentos migratórios nas relações entre países pobres e ricos e a proposta americana de construir um muro na divisa entre os Estados Unidos e o México.
Vários chefes de Estado aproveitarão a cúpula para manter encontros paralelos, como o presidente da Bolívia, Evo Morales, o primeiro-ministro espanhol, José Luis Zapatero, e a presidente do Chile, Michelle Bachelet.