03 de novembro, 2006 - 21h00 GMT (18h00 Brasília)
Angela Pimenta
De Nova York
O brasilianista americano Albert Fishlow disse nesta sexta-feira que o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva continuará a ser marcado pela tensão entre a austeridade econômica e o desenvolvimentismo.
Para ele,“esta é a contradição econômica do governo, que se divide entre a austeridade de um Henrique Meirelles à frente do Banco Central e do desenvolvimentismo representado pelos ministros Dilma (Rousseff, ministra da Casa Civil) e (Guido) Mantega (ministro da Fazenda).”
Fishlow também acrescentou que “a vitória de Lula e do PT, e a derrota do PFL mostram que o Brasil, devido à tremenda desigualdade econômica da região, tal como a América Latina, está se movendo para a esquerda”.
O brasilianista fez as declarações durante um seminário promovido pela Universidade Columbia e pelo centro de estudos Americas Society em Nova York. Também participaram do encontro o economista Edmar Bacha, co-diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica, e do cientista político Carlos Pio, da Universidade de Brasília.
Reforma fiscal
Fishlow disse que uma reforma fiscal “é crucial” para o Brasil, porque cerca de 90% do orçamento do governo federal já está comprometido com gastos previstos pela Constituição.
“Além disso, hoje o país gasta 13% de seu Produto Interno Bruto com a previdência social,” afirmou.
Segundo Fishlow, “ao privilegiar os gastos com os idosos, o Brasil está deixando de gastar com a educação e o treinamento da população jovem.”
O brasilianista concluiu dizendo que “as pessoas costumam pensar que o crescimento econômico é resultado direto da política do governo. Mas na verdade, ele resulta de ganhos de produtividade e de investimentos em educação e do setor privado.”
Cenários
Edmar Bacha traçou três cenários possíveis para economia no segundo mandato de Lula.
“O primeiro cenário, que chamo de tedioso, e que tem uma chance de 50% de acontecer, seria marcado por um panorama global benigno, de crescimento moderado,” disse Bacha.
“No Brasil, veríamos a continuidade de uma política econômica austera no curto prazo, com a inflação sob controle, mas sem nenhum avanço estrutural.”
Nestas condições, para Bacha, a economia brasileira continuaria a crescer entre 2,5% e 3% ao ano.
O segundo cenário, chamado de “amedrontador” por Bacha, seria marcado pela recessão nos Estados Unidos e uma desaceleração na China.
Nesta conjuntura global negativa, as exportações brasileiras cairiam significativamente. Pressionado pela ala desenvolvimentista, o governo Lula passaria a adotar “uma política econômica populista, deixando de lado a austeridade.”
Segundo Bacha, este cenário tem uma probabilidade de 25% de acontecer.
Coalizão
Finalmente, num terceiro cenário, o mais positivo, fortalecido por sua ampla votação, Lula seria capaz de montar um governo de coalizão e promover uma reforma fiscal que desonerasse o Estado e o setor privado, além de manter o superávit primário e o regime de metas de inflação.
“Neste cenário, ao longo de dois anos, o país poderia cortar a taxa de juros para a casa dos 6%, em termos reais, e a economia brasileira poderia ter um crescimento consistente entre 5% e 6% ao ano,” disse Bacha.
O economista acrescentou que tal cenário também tem uma chance de 25% de acontecer.
Mas os panelistas afirmaram que seja lá qual for o cenário, o presidente Lula será o principal articulador político da agenda econômica do governo no Congresso.
“Lula terá um papel-chave no sentido de tentar aprovar reformas, como a fiscal e da previdência, sem permitir que o Congresso enfraqueça as estratégias adotadas pela equipe econômica,” disse Carlos Pio.
Na agenda econômica do governo, Pio citou a necessidade da aprovação, por lei, da independência do Banco Central, além de uma maior abertura da economia brasileira e de medidas regulatórias que facilitem a realização de negócios no país.