http://www.bbcbrasil.com

03 de outubro, 2006 - 15h27 GMT (12h27 Brasília)

Paulo Cabral
Do Cairo

Analistas egípcios esperam pouco da visita de Rice

Analistas egípcios esperam pouco desta visita ao Oriente Médio de Condoleezza Rice, que nesta terça-feira passa pelo Cairo para encontros com autoridades locais e também representantes dos países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG).

“Rice vem ver o que fazer para impedir que a situação no Oriente Médio continue a se deteriorar. Mas há pouco que possa ser feito, porque esta Casa Branca não tem intenção de mudar suas políticas para a região”, avalia o cientista político da Universidade Americana do Cairo, Walid Kazziha.

Há pouco mais de um ano – em outra visita ao Cairo – Rice admitiu, em discurso, que os americanos haviam por décadas “preferido promover a estabilidade ao invés da democracia” no Oriente Médio e afirmou que a antiga política estava mudando.

Mas o projeto de promoção de democracia no Oriente Médio ficou em segundo plano com as vitórias de grupos islâmicos onde eleições foram realizadas – como a Irmandade Muçulmana, no Egito, e o grupo Hamas, nos territórios palestinos – e com a instabilidade crescente no Iraque.

“Desta vez Rice vai se encontrar com líderes próximos dos Estados Unidos, descritos como moderados, mas que não têm grandes credenciais democráticas. É um retrocesso, um declínio na importância que a democracia tem na política externa americana”, avalia o pesquisador egípcio do instituto Carnegie Endowment for International Peace, de Washington, Amr Hamzawy.

Viagem

Rice começou a visita ao Oriente Médio pela Arábia Saudita, onde se encontrou com o rei Abdullah Bin Abdul Aziz.

No Egito a agenda de visitas começou com uma reunião com o chefe dos serviços secretos Omar Suleyman, um dos nomes mais poderosos do governo de Hosni Mubarak.

O Egito costuma ter papel destacado na mediação de crises no Oriente Médio – em especial no conflito entre israelenses e palestinos – e Suleyman é quem geralmente representa o país nestas negociações, que por vezes são secretas.

Depois do encontro com os ministro do CGC presentes no Cairo, a secretária deve conceder uma entrevista coletiva à imprensa antes de seguir em sua viagem, que ainda inclui passagens por Israel e pelos territórios palestinos.

Estabilidade

Além de pedir ajuda de líderes árabes, Condoleezza Rice também deve oferecer apoio a eles, já que muitos estão ameaçados por crises e insatisfação dentro de seus próprios países.

“Mas a intenção agora vai ser ajudar na estabilização sem cobrar reformas democráticas que possam trazer incertezas. O foco da política americana é com a estabilidade geral na região e não com as condições dentro de cada país”, diz Kazziha.

O cientista político diz que os árabes, por sua vez, devem pressionar Rice a ter uma postura menos intransigente com o grupo Hamas, que ganhou em eleições o governo da Autoridade Palestina.

Desde que o grupo islâmico – classificado de terrorista por Estados Unidos e Israel – chegou ao poder quase todos os recursos internacionais para a Autoridade Palestina foram cortados.

Umas das conseqüências é o atraso de seis meses no pagamento dos funcionários públicos, que provocou os recentes distúrbios na Faixa de Gaza, com policiais e outros membros de forças de segurança - leais ao Fatah, do presidente Mahmoud Abbas - promovendo violentos protestos nas ruas.

“Os líderes árabes devem pressionar os Estados Unidos a aceitar a idéia de o Hamas participar da divisão de poder da Autoridade Palestina, mas é difícil que esta idéia consiga espaço dentro deste governo americano”, diz Walid Kazziha.

Iraque

A respeito do Iraque, Kazziha afirma que os árabes devem dizer que é necessário um maior equilíbrio na distribuição de poder entre as comunidades iraquianas.

Hoje os xiitas – que têm a maior população – estão no comando do país, enquanto os sunitas (de Saddam Hussein e da grande maioria dos líderes do mundo árabe) acabaram em posição secundária.

“Condoleezza Rice deve ouvir pedidos de apoio a um fortalecimento da posição dos sunitas no Iraque”, diz Kazziha.

“Mas os americanos e árabes têm que tomar muito cuidado com qualquer medida que possa levar a um esfacelamento do país. A divisão do Iraque em uma federação ou qualquer coisa deste tipo deixaria o país bem mais suscetível a influências e intervenções de vizinhos como o Irã e a Síria”, adverte o pesquisador.