02 de outubro, 2006 - 21h29 GMT (18h29 Brasília)
Pablo Uchoa
De Londres
O presidente Lula errou na última semana de campanha, ao faltar ao debate organizado pela TV Globo e imputar somente ao seu próprio partido a responsabilidade no escândalo da compra de fitas contra o tucano José Serra.
A opinião é do professor de Ciências Políticas da Universidade de Paris 1, Stéphane Monclaire, que acrescentou: "Essas decisões erradas, em uma campanha até então sem erros, foram exploradas à exaustão pela oposição e pela mídia".
Mas o brasilianista não descartou que denúncias ou ataques pessoais surjam também contra o candidato tucano, Geraldo Alckmin, e turvem ainda mais a definição do segundo turno.
"Ainda temos quatro semanas, e muito, muito ainda vai acontecer. Um mês é um tempo enorme, considerando que há 15 dias Lula tinha 55% das intenções de voto. É uma mudança colossal!"
Imprensa
Questionado sobre uma possível vitória de Alckmin o professor disse que o candidato tucano necessita ganhar os votos de protesto que foram para Heloísa Helena e Cristóvam Buarque.
O candidato tucano tem a seu favor a "surpresa" de ter chegado ao segundo turno, um histórico mais brando de denúncias de corrupção, e o apoio de aliados fortes, como o governador Aécio Neves, "que se reelegeu triunfalmente em Minas Gerais", nas palavras do professor.
Se conseguir vencer Geraldo Alckmin no dia 29 de outubro, Lula começará seu novo mandato "fragilizado".
À diferença do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso - que conseguiu uma reeleição fácil em 1998 - Lula travará com o PSDB uma batalha que no mínimo deixará cicatrizes, porque o segundo turno "acirrará posições".
Se eleito, o petista terá de enfrentar pressões políticas - como ameaças de CPI e até de impeachment - em um Congresso onde a oposição se fortaleceu, prevê o brasilianista.
Uma oposição mais forte tentará encontrar o que ainda está inédito: a prova contundente de que Lula conheceu ou avalizou os casos de corrupção atribuídos ao seu governo.
Tarefa difícil, entretanto, ainda mais porque o efeito político terá de diminuir o otimismo gerado pelos bons indicadores de crescimento econômico e distribuição de renda.
"Todos os países latino-americanos que vivenciaram impeachments nos últimos anos estavam em momentos econômicos ruins, que geraram descontentamento na população", explicou o professor da Sorbonne.
"O descontentamento econômico gerou descontentamento político. Mas esse é o caso inverso do Brasil, cuja economia está em retomada."