22 de setembro, 2006 - 11h09 GMT (08h09 Brasília)
Anelise Infante
De Madri
Nem todo o lixo é inútil. Uma mostra cultural espanhola com sucesso de público e crítica está provando que as sobras que vão parar nas lixeiras podem virar arte funcional.
“Lixo Panorâmico” é uma exposição de objetos reciclados e transformados em peças arquitetônicas.
Nem mesmos os autores esperavam tanto sucesso. “Quem diria que o lixo daria para tanto”, comentou Manuel Polanco, um dos integrantes da equipe Lixorama (Basurama, em espanhol).
O grupo é formado por nove estudantes de arquitetura da Universidade Politécnica de Madri. Eles trabalham com reutilização de lixo desde 2000, e com qualquer coisa que encontram nas lixeiras, exceto material orgânico.
No princípio eram amigos que se divertiam saindo pelas ruas de Madri e vasculhando o lixo da cidade. “Chamamos de safári-lixo. Um vigia de um supermercado nos empresta carrinhos e vamos pelos bairros pegando coisas que as pessoas jogam fora”, explicou Rubén Montero, outro dos integrantes de Lixorama.
Objetos funcionais
A exposição, inaugurada no dia 14 de setembro no centro cultural Casa Encendida (Madri) exibe objetos funcionais como sofás feitos de tubos de polipropileno, luminárias de CDs derretidos, mesas e cadeiras de plástico ou de papel cartão e ferro fundido ou roupas transformadas a partir de retalhos e peças desgastadas.
“São protótipos prontos para serem utilizados. Algumas pessoas, principalmente estilistas, estão interessadas e vêem possibilidades de comercialização”, disse Manuel Polanco.
A história da equipe começou nas aulas de arquitetura como uma brincadeira. O grupo, cuja média de idade é 26 anos, só tinha problemas na hora de chegar em casa.
“Nossos pais acabaram nos proibindo de armazenar as coisas em casa e tivemos que encontrar um estúdio”, comentou Rubén Montero.
Nas coletas do “safári-lixo” os estudantes fizeram amizades. Mendigos, pessoas de classe baixa e vigias, que até colaboram na hora de ajudar ou dividir o material.
“A maior parte da sociedade vê o lixo como algo desagradável, mas o que é lixo ou não depende da necessidade de cada um”, definiu Polanco.
Reciclagem
O processo de reciclagem começa com o que a equipe Lixorama chama de memória dos objetos. “É mais poético. Tentamos encontrar uma história para a peça. Ver o que tem de bonito, pensar quem seria a pessoa que a utilizou…
E daí achar uma nova função. Não somos artistas, realmente nos interessa o ponto de vista da funcionalidade”, disse Montero.
A idéia entusiasmou arquitetos internacionais como a americana Denise Scott Brown, professora em universidades como Yale e da Pensilvânia, que elogiou o trabalho da equipe.
“Consagrando o lixo, o mais secular de nossos produtos, e procurando nele uma beleza incomum, esperamos ter encontrado uma arquitetura adequada a nossos tempos”, disse a americana.
Apesar da utilização dessa matéria-prima, a Lixorama espera que no futuro as lixeiras estejam mais vazias. “O ideal seria que as indústrias reduzissem seu lixo. O problema é que às vezes sai mais barato produzir algo do que reciclar”, explicou Montero.
Entre o público a mostra está fazendo sucesso. A estudante madrilenha Paz Dominguez disse que foi ver os objetos por curiosidade e saiu “com vontade de revirar o lixo de casa e construir algo parecido”.
A exposição “Lixo Panorâmico” estará em cartaz em Madri até 8 de outubro.