12 de setembro, 2006 - 19h08 GMT (16h08 Brasília)
Marina Wentzel
De Pequim
A economia chinesa precisa investir em inovação e em tecnologia nacional se quiser em 2010 ser duas vezes do tamanho que era em 2000, prevêem analistas que participam do Fórum Econômico Mundial, que ocorre nesta semana em Pequim.
A tendência é que o PIB (Produto Interno Bruto) chinês deixe de ser baseado no setor de manufaturas e construção civil e passe a se fundamentar no segmento de serviços, como é característico aos países desenvolvidos, dizem os especialistas.
No entanto, para fazer uma transição bem sucedida a China precisa desenvolver tecnologia nacional, investir na qualificação do capital humano e reforçar as leis de propriedade intelectual, como estímulo à criatividade.
Atualmente, boa parte do lucro das fábricas chinesas é remetido ao exterior para o pagamento de royalties. Por exemplo, mais de 80% dos chips digitais manufaturados no país são de propriedade intelectual estrangeira.
O desenvolvimento de tecnologia nacional ainda é fortemente baseado na cópia e na adaptação de idéias e produtos importados. Além disso, o esforço das autoridades no combate à pirataria deixa a desejar, segundo os Estados Unidos e o Japão.
O ministro de Ciência e Tecnologia chinês, Xu Guanhua, disse em uma palestra no Fórum que a China precisa reforçar a proteção à propriedade intelectual não só por causa das exigências feitas pela Organização Mundial do Comércio (OMC), quando a China se filiou à entidade, mas para o seu próprio bem.
“Se nós falharmos ao assegurar o respeito à propriedade intelectual, toda essa conversa sobre inovação terá sido em vão”, explicou Xu.
Incentivo
A China reconhece que está perdendo competitividade e dinheiro e por isso colocou o incentivo à inovação e à tecnologia nacional como prioridades no 11º plano qüinqüenal, que vigora a partir do segundo semestre de 2006.
“Inovação é a alma do avanço de uma nação e inesgotável força de prosperidade”, disse o vice-primeiro ministro, Zeng Peiyan.
O investimento em pesquisa e desenvolvimento tem crescido. No meio da década de 90, correspondia a 0,57% do PIB, atualmente representa 1,23% e o plano é chegar a 2,5% em 2025. Os Estados Unidos, que são referência em pesquisa e desenvolvimento, dedicam 2,76% de seu PIB para esses fins.
Entre as medidas do plano qüinqüenal estão previstos fundos para pesquisa nas áreas de energia e recursos naturais, proteção ambiental, design de equipamentos e software, biotecnologia e indústria aeroespacial.
Mudança cultural
Em entrevista à BBC Brasil, Augusto Lopez-Claros, economista-chefe e diretor do programa de competitividade global do Fórum Econômico Mundial, explicou que para estimular a criatividade também é preciso promover uma mudança cultural nas relações de trabalho.
Segundo ele, a tradição asiática é extremamente hierárquica e isso representa um empecilho à inovação. “As pessoas não ousam contrariar seus superiores e isso impede que críticas e idéias novas aflorem”.
Lopez-Claros ressaltou ainda um que o sistema educacional chinês é muito voltado para avaliação dos estudantes em testes metódicos, o que desencoraja o pensamento criativo.
“O medo de cometer erros nos impede de arriscar e inovar, mas é preciso entender que isso faz parte do aprendizado”, disse à BBC Brasil o palestrante Mario Rivas, vice-presidente da AMD, empresa de tecnologia norte-americana que opera na China.
Por outro lado, Kapil Sibal, ministro de Ciência e Tecnologia da Índia, justificou a falta de inovação em razão do baixo retorno financeiro que inventores locais recebem por suas criações.
Ele explicou que a população precisa perceber que dá para fazer dinheiro com invenções, mas acrescentou que “nem a China nem a Índia têm, na prática, uma legislação eficiente para assegurar isso”.