01 de setembro, 2006 - 02h45 GMT (23h45 Brasília)
Paul Reynolds
A decisão do Irã de não suspender o processo de enriquecimento de urânio, conforme havia sido exigido pelo Conselho de Segurança da ONU, prepara o terreno para o próximo passo nessa antiga briga: possíveis sanções internacionais.
Mas ainda há muitas disputas diplomáticas pela frente considerando-se que as pressões americanas e européias devem ser contrabalançadas pela relutância dos russos e dos chineses em aprovar as restrições.
O descaso iraniano pela resolução 1696, que exigia a suspensão do enriquecimento de urânio e a adoção de determinadas medidas até 31 de agosto, foi confirmado por um relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) vazado para a mídia nesta quinta-feira em Viena, onde fica a sede da agência.
O relatório não só conclui que o Irã não suspendeu as atividades relacionadas ao enriquecimento de urânio, como diz que o país vem bloqueando o trabalho dos inspetores da AIEA.
"Conversas sérias"
A postura iraniana não causou surpresa. Horas antes do fim do prazo, o presidente Mahmoud Ahmadinejad havia dito que o Irã "nunca abandonaria seu óbvio direito à tecnologia nuclear pacífica".
O Conselho de Segurança havia exigido a suspensão do programa como condição para abrir uma negociação sobre vantagens comerciais ao Irã, que incluiriam a transferência de tecnologia nuclear para produzir eletricidade.
Teerã respondeu que estava pronto para manter "conversas sérias", mas que não suspenderia o seu programa nuclear por antecipação.
Agora os Estados Unidos vão consultar Grã-Bretanha, França e Alemanha - que anteriormente já conduziram negociações infrutíferas com o Irã. Se chegarem a um acordo, esses países chamarão a China e a Rússia. E é aí que as dificuldades começam.
Nem Moscou nem Pequim gostam da idéia de sanções, especialmente as que podem ter impacto nos seus interesses no Irã. A China já assinou acordos para comprar petróleo do Irã.
Portanto, as primeiras sanções propostas pelos Estados Unidos podem ser mais leves - envolvendo viagens e recursos financeiros de iranianos ligados ao programa nuclear.
Uma sanção mais séria seria proibir a transferência de tecnologia ou equipamento nuclear ou adotar uma restrição parecida para materiais que podem ser usados no desenvolvimento de mísseis.
O Conselho de Segurança também poderia, por exemplo, banir exportações de produtos que podem ser usados para fins nucleares para a Coréia do Norte - país que abandonou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear e declarou ter fabricado uma bomba nuclear.
Se a China e a Rússia forem contra as sanções, ou pelo menos contra as mais sérias, os Estados Unidos poderão tentar costurar uma coalizão para pressionar mais o Irã.
O governo americano já exerce sanções sobre o Irã, especialmente contra qualquer cooperação nas indústrias de petróleo e gás. Washington pode propor que a Europa também adote as medidas, mas esse é um recurso final.
Nesse meio tempo, o Irã certamente continuará com as suas atividades de enriquecimento de urânio.
Teerã deve continuar insistindo que o Tratado de Não-Proliferação lhe assegura o direito de enriquecer urânio com fins pacíficos.
O problema para o Ocidente é que o Irã escondeu o seu programa de enriquecimento de urânio por 18 anos e como consequência perdeu a confiança da AIEA.
O temor dos inspetores da agência é que mais cedo ou mais tarde o país usará o conhecimento adquirido para produzir armas nucleares.
A idéia de um ataque ao Irã não está descartada, mas por enquanto está em banho-maria.