24 de agosto, 2006 - 08h47 GMT (05h47 Brasília)
Marcia Carmo
de Buenos Aires
O temor dos apagões levou o governo argentino a anunciar, na quarta-feira, um plano bilionário de desenvolvimento nuclear para fins pacíficos.
Ao lado do presidente Nestor Kirchner, o ministro do Planejamento, Julio de Vido, disse que o pacote de medidas pretende "melhorar a vida dos argentinos".
De acordo com a imprensa argentina, o conjunto de medidas prevê investimentos de cerca de US$ 3,5 bilhões ao longo de oito anos. Os projetos incluem a construção de uma quarta usina nuclear no país, a conclusão das obras da base nuclear Atucha II, que começaram há 25 anos, e a retomada da produção de urânio enriquecido.
Essa produção estava interrompida, no país, desde os anos 80. Segundo fontes da área na Argentina, o setor energético passa por um momento crítico, por diferentes razões.
O frio intenso, registrado neste inverno, aumentou o consumo de energia elétrica em lugares como Buenos Aires e as províncias da Patagônia.
Além disso, a economia argentina bate novos recordes de expansão, pressionando o uso de energia.
A Argentina, como o Brasil, assinou, recordaram assessores do governo argentino, o tratado de não-proliferação de armas nucleares. Os dois países mantêm ainda um entendimento para troca de informações nesta área.
O acordo está em vigor desde os anos 80, quando os presidentes eram José Sarney, no Brasil, e Raul Alfonsín, na Argentina. Na época, eles adotaram a iniciativa para afastar a desconfiança que um país tinha um do outro.
Alternativas
O objetivo do chamado "Plano Nuclear Argentino" é criar fontes alternativas de energia, com a geração de energia "nucleoelétrica" e o uso de tecnologia nuclear nas áreas de saúde e indústria, como afirmou o próprio ministro De Vido, em uma cerimônia realizada na Casa Rosada.
"Nossa decisão tem elevado índice de paz. Nossa única preocupação é com o bem-estar da população", disse.
Outras medidas previstas no pacote energético são melhorias na central Embalse, com mais de 20 anos de existência, e o aumento da produção de água pesada na base Arroyito.
Todas as iniciativas estão vinculadas à mesma meta de buscar opções ao petróleo, cujo preço vem registrando altas recordes, e ao gás, que também está aumentando.
Como o Brasil, a Argentina também é hoje importadora - em menor quantidade que o mercado brasileiro - do gás da Bolívia.
Também como seu vizinho, escreveu o jornal Clarin, com estas medidas o país presidido por Kirchner pretende aumentar a presença internacional da Argentina no contexto nuclear.
A intenção é ter não apenas potencial energético interno, mas também ser um possível exportador no futuro.
Ao contrário do esperado, no rápido anúncio o ministro Julio de Vido não deu maiores detalhes sobre o pacote energético, apresentado a diplomatas brasileiros e canadenses, entre outros.
Todas as iniciativas respeitam, observaram assessores do governo, o acordo de cooperação assinado com o Canadá e a Atomic Energy of Canadá Limited (AECL, na sigla em inglês), supervisionado pelos Estados Unidos.
O anúncio argentino ocorre em meio a uma grande crise internacional que envolve o programa nuclaer do Irã.
O Conselho de Segurança da ONU determinou que o país asiático pare de enriquecer urânio até o final deste mês ou enfrente possíveis sanções. O Irã afirma que seu plano apenas prevê o uso pacífico da energia.