17 de agosto, 2006 - 12h22 GMT (09h22 Brasília)
Caio Blinder
de Nova York
Thomas Friedman, o colunista do New York Times que é considerado o mais influente comentarista de política externa nos EUA, está visivelmente irritado com o governo Bush. Basta ver a sua coluna publicada na quarta-feira.
Ele acusa o Partido Republicano de carecer de uma "honesta autocrítica" para assumir o "fiasco" da guerra no Iraque e investe contra as táticas do vice-presidente Dick Cheney e companhia, que fazem o que podem nos pronunciamentos públicos para questionar o empenho da oposição democrata na chamada "guerra contra o terror".
Friedman foi soldado jornalístico de primeira hora na guerra do Iraque. Ele desertou. Hoje a imprensa está pulverizada e não possui um jornalista com a influência incontestável de um Walter Cronkite.
Mas o recuo de Friedman a grosso modo está sendo comparado à constatação do lendário apresentador da rede de televisão CBS, em 27 de fevereiro de 1968, de que os americanos não tinham como vencer a guerra do Vietnã.
Como nos anos 60 de Cronkite, o gesto de Friedman consolida um deslocamento da oposição à guerra do Iraque das bordas políticas para o centro.
Friedman não se define como um pacifista e nas suas mais recentes colunas ele tem alertado contra a jogada republicana de tratar os democratas como frouxos em questões de segurança nacional.
A jogada republicana ficou flagrante após a derrota na semana passada do veterano senador democrata Joe Lieberman nas primárias senatoriais no estado de Connecticut para o noviço Ned Lamont.
Porta-vozes da Casa Branca e do Partido Republicano foram rápidos para definir o resultado como um reflexo de oposição ao extremismo islâmico.
Mas a derrota de Lieberman, que deverá agora concorrer como independente em novembro, foi essencialmente um repúdio ao envolvimento americano no Iraque, que é defendido ardorosamente pelo senador.
É verdade que os ativistas de esquerda tiveram um papel essencial na vitória de Lamont, mas é muito mais sintomática a guinada do que pode ser identificado como o centro da sociedade americana.
Catástrofe
Como lembrou esta semana a revista New Yorker, "entre as elites da política externa e o público mais amplo existe agora a convicção preponderante que a guerra de escolha de George W. Bush no Iraque é uma catástrofe".
Thomas Friedman e outros comentaristas do establishment americano alertam que a mera retirada do Iraque poderá ser uma resposta necessária mas insuficiente à ameaça do islamismo radical e violento.
Em contraste, o governo Bush adverte que aqueles que defendem esta retirada do Iraque estão fazendo o jogo dos inimigos na chamada "guerra contra o terror".
Em particular através do vice-presidente Dick Cheney e do mago eleitoral Karl Rove, o governo Bush quer transformar contraterrorismo na pedra-de-toque da campanha para as eleições para o Congresso em novembro, minimizando o Iraque, que é um tema evidentemente impopular.
A idéia é usar situações como a alegada trama terrorista desbaratada na Grã-Bretanha na semana passada para amedrontar o eleitorado e intimidar a oposição democrata.
Mas esta ofensiva governamental esbarra no consenso forjado contra a guerra do Iraque e no ceticismo de comentaristas como Thomas Friedman.
As pesquisas mais recentes mostram que os votantes consideram Iraque e os preços do petróleo como prioridades mais importantes do que terrorismo, apesar das ameaças genuínas e do clima de ansiedade insuflado pelo governo Bush.