15 de agosto, 2006 - 06h35 GMT (03h35 Brasília)
Silvia Salek
O primeiro debate entre candidatos à eleição presidencial, na noite de segunda-feira, foi marcado por críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pela ausência de qualquer ataque nominal entre os participantes.
O clima cordial só foi quebrado a partir da segunda metade do debate, com os ataques, ainda que indiretos, da candidata do PSOL, Heloísa Helena, ao candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, no tema segurança pública.
"Eu o critiquei, sim", disse Heloísa Helena após o debate de duas horas, promovido pela Rede Bandeirantes em São Paulo.
Respondendo a jornalistas que lembraram que, em momento algum, ela havia criticado o segundo colocado nas pesquisas de opinião diretamente, a senadora concluiu: "O importante não é nomear o alvo, mas sim nomear o ataque".
No clima amigável que marcou a interação entre os presidenciáveis, Cristovam Buarque (PDT) disse admirar a candidata do PSOL, chegando a defendê-la das acusações de que pretende acabar com um programa de auxílio a universitários.
Arrogância
A ausência de Lula no debate mereceu mais críticas do que os resultados de seu governo.
O candidato do PSDC, José Maria Eymael, fez piada com o tema, provocando risos na platéia: "O presidente nunca viu nada, nunca soube de nada. Talvez não soubesse que hoje tinha debate".
Heloísa Helena, sentada ao lado da cadeira vazia reservada para Lula, não poupou o presidente de críticas.
"Não aceito que a arrogância dele o faça pensar que é maior do que os outros. Ou que nós tenhamos que pensar que ele está fugindo, que está com medo".
O liberal Luciano Bivar também aproveitou para criticar Lula ao responder uma pergunta de Cristovam Buarque – que comentou ser colega de jogos de futebol do candidato do PSL – sobre quem decepcionou mais, Lula ou a Seleção.
"A seleção de futebol, às vezes, decepciona a cada quatro anos, mas Lula está há quatro anos decepcionando".
Divergências
As divergências entre os candidatos só começaram a ficar mais claras no penúltimo bloco, quando três jornalistas da Rede Bandeirantes fizeram perguntas aos candidatos.
Ao comentar uma resposta de Alckmin sobre a crise na segurança, Heloísa Helena disse que a situação atual era caótica.
"Existe uma irresponsabilidade demagógica e eleitoreira entre PT e PSDB inaceitável", disse, acrescentando que os partidos deveriam "humildemente assumir a culpa pelo problema".
Alckmin, demonstrando nervosismo quando sua imagem não era transmitida ao vivo, culpou Lula dizendo que boa parte da legislação é responsabilidade do governo federal, e "Lula e o Congresso amoleceram para o crime organizado".
Outra divergência entre os candidatos surgiu em uma resposta de Cristovam Buarque sobre o programa Bolsa Família.
'Deformação'
Respondendo à pergunta de Joelmir Beting, Buarque disse que o programa é uma deformação do Bolsa Escola.
Pela lógica do Bolsa Escola, as pessoa pensam, segundo ele: "recebo esse dinheiro porque meu filho estuda e vou sair da pobreza. Agora elas pensam: recebo porque sou pobre e não posso sair da pobreza", disse o candidato que propôs a volta do Bolsa Escola.
Comentando a resposta, Alckmin elogiou o Bolsa Família e prometeu mantê-lo durante seu eventual governo.
Formas diferentes de encarar um mesmo problema também ficaram claras quando os cadidatos Heloísa Helena e Geraldo Alckmin responderam uma pergunta sobre a invasão de terras.
Após dizer que fará a reforma agrária, assentando um milhão de famílias, Heloísa Helena disse que, em seu governo, não haverá "invasão dos políticos corruptos e banqueiros aos cofres públicos".
Alckmin comentou a resposta. O tucano disse ser preciso distinguir entre reforma agrária e invasão de terras. "No meu governo, invadiu, vai desinvadir (sic)", afirmou.
'Menino de recados'
Respondendo a uma pergunta sobre como e em quanto iria reduzir as taxas de juros, a candidata do PSOL respondeu que a taxa será reduzida pela metade e que, em seu governo, o Banco Central não terá "meninos de recado do capital financeiro".
Ao comentar a resposta, Buarque afirmou que não é possível garantir "qual será a taxa de juros correta daqui a seis meses", e que sua redução não resolverá os problemas do país. Uma revolução na educação, insistiu várias vezes o candidato, é que resolverá esses problemas.
Heloísa Helena discordou dizendo que o dinheiro para educação, saúde e segurança pública virá dos recursos pagos a "especuladores" e da queda da taxa de juros.
"Não quero acabar com a Bolsa Família, quero acabar com o "bolsa banqueiro'", concluiu.