14 de agosto, 2006 - 15h27 GMT (12h27 Brasília)
Roger Hardy
A divisão do Iraque em três países diferentes pode ser uma saída para conter a violência sectária que cresce exponencialmente no país.
Políticos iraquianos xiitas têm sugerido a idéia cada vez mais decididamente, com o apoio de figuras proeminentes de Washington.
Será que o Iraque tem futuro como um país único?
A divisão do Estado iraquiano em três não é um a idéia nova, só que agora, está sendo revista em Bagdá e em Washington com vigor renovado, graças aos números crescentes de mortes nos conflitos entre sunitas e xiitas no país.
Um dos políticos xiitas iraquianos mais respeitados, Abdel-Aziz Hakim, tem pressionado abertamente por uma “super-região” xiita, que teria mais da metade das províncias e do petróleo do Iraque.
Um membro do governo iraquiano, declarou anonimamente à agência de notícias Reuters que “o Iraque, como projeto político, está acabado”.
“O federalismo isolaria as partes do país que estão incubando o terrorismo daquelas que estão melhorando e progredindo”, disse o ministro da educação, Khudair Khuzai, que é xiita, ao Los Angeles Times.
A observação de Khuzai sugere que a região a ser isolada seria a região norte do país e o oeste de Bagdá – ambas sunitas – e as regiões que progridem seriam a parte norte sob o domínio curdo e o sul xiita.
“Faremos como está fazendo o Curdistão”, disse o ministro. “Colocaremos soldados nas nossas fronteiras.”
A sugestão encontra apoio em Washington.
Um ex-diplomata americano, Peter Galbraith, acabou de publicar um livro chamado O Fim do Iraque.
Ele argumenta que o país já se despedaçou e que nem o poderio americano pode reverter o processo.
Joseph Biden, um senador democrata, também apóia uma divisão formal.
Fusão de etnias
Só que os críticos da idéia também estão igualmente decididos.
Uma divisão formal do Iraque, eles dizem, seria confusa e violenta, e o resultado final não seria necessariamente a estabilidade.
Com o petróleo iraquiano ficando nas mãos dos curdos ao norte e dos xiitas ao sul, os árabes sunitas passariam a ser uma minoria empobrecida e isolada.
A divisão também seria uma tentadora oportunidade para a intervenção de outros países da região, como Irã, Síria, Arábia Saudita e Turquia.
Os que defendem a idéia de se dividir o Iraque em três, como Galbraith, são ferrenhos defensores dos curdos iraquianos, só que uma solução boa para os curdos não é necessariamente uma boa solução para todos.
Ele fala de uma “unidade forçada” durante o governo de Saddam Hussein, que teria mantido o país com punho de ferro, mas essa é uma visão que subestima o conceito de país que o Iraque já tinha.
Por décadas, casamentos entre sunitas e xiitas, e entre árabes e curdos, fizeram com que Bagdá tivesse uma intensa fusão de diversas etnias e religiões.
Só recentemente a idéia do Iraque como um país único começou a ser questionada.
Agora, sob intensa pressão causada pela “limpeza étnica”, o país começou a caminhar inexoravelmente para a fragmentação.
O futuro do Iraque tende a ser determinado pelos acontecimentos na sociedade, muito mais do que pelos discursos dos políticos.
O presidente americano, George W. Bush, defende firmemente a unidade iraquiana, mas por razões próprias.
Bush preferiria ser lembrado como o líder que acabou com a ditadura no Iraque do que entrar para a história como o responsável pela sua destruição.