06 de agosto, 2006 - 21h38 GMT (18h38 Brasília)
Mery Vaca
de La Paz
Os 255 membros da primeira Assembléia Constituinte eleita da Bolívia são "soldados na luta pela liberdade, dignidade e igualdade", disse neste domingo o presidente boliviano Evo Morales.
Morales inaugurou o órgão legislativo em uma cerimônia na cidade de Sucre, capital do pais.
Conformada por muitos jovens, sindicalistas e mulheres, a assembléia abre as portas a cidadãos que até agora haviam sido excluídos da vida pública do país.
Segundo um levantamento do diário La Razón, mais de 30% dos constituintes é sindicalista e indígena, e outro tanto são mulheres.
Quatro quintos dos representantes têm idades entre 20 e 50 anos.
Expectativas
São grandes as expectativas domésticas, porque todos os conflitos e potenciais enfrentamentos foram redirecionados para serem resolvidos na Assembléia.
Assim, por exemplo, será debatida a questão da autonomia, que confronta as províncias do leste e do oeste do país; a religião, campo em que o governo e a igreja não encontram ponto de acordo; a propriedade de terras, que agora é um foco de conflito permanente.
O presidente Morales, embora pregue a soberania da Constituinte, ressalta que os únicos setores aos quais ela deve se submeter são os sociais.
Como afirmou o vice-presidente, Álvaro Garcia Linera: "A Bolívia teve mais de uma dezena de Constituintes. Em todas elas, os indígenas, camponeses e setores majoritários foram marginalizados da vida republicana".
Ícone
O ícone da nova composição política é a presidente da Assembléia. Chama-se Silvia Lazarte e é uma indígena quéchua de poucos recursos econômicos.
Foi eleita pela próspera região de Santa Cruz, mas vem da área rural de Cochabamba.
Lazarte foi nomeada nas sessões preparatórias, e assumiu suas funções neste domingo, dia em que o país celebra ainda 181 anos de vida republicana.
Ela acredita que sua eleição se deve às "lutas de todas as mulheres bolivianas e nossos antepassados, e também à marginalização das mulheres e dos indígenas durante tanto tempo".
Nas sombras
Há 16 anos, foram precisamente os indígenas do leste (ou "oriente", como chamam os bolivianos) que fizeram uma longa marcha até a cidade de La Paz para exigir que se convocasse uma constituinte.
A exigência se manteve na agenda nacional sem maiores surpresas até o ano 2000, quando os indígenas do oeste ("ocidente") romperam a aparente tranqüilidade do país com incontroláveis bloqueios a estradas.
Naquele ano, descobriu-se que uma parte da Bolívia havia permanecido nas sombras.
Desde então, o processo de mudança se precipitou com mais rapidez.
Em 2003, o presidente Gonzalo Sánchez de Lozada foi obrigado a renunciar, e de imediato surgiu com força o indígena de esquerda Evo Morales, que agora governa o país com níveis de popularidade que oscilam entre 70% e 80%.
Morales, que deu sua mensagem ao Congresso, destacou o caráter "refundador" e "plenamente soberano" da Assembléia, cujos desígnios estarão nas mãos das mulheres e dos indígenas.