05 de agosto, 2006 - 21h18 GMT (18h18 Brasília)
Paulo Cabral
De Beirute
A dona de casa brasileira Zeina Kourany mora no Sul do Líbano - a área mais bombardeada por Israel – mas está confiante de que um cessar-fogo é desnecessário, porque a "resistência do Hezbollah" vai ser vitoriosa.
"A gente sabe que tem muito gente morrendo mas quem ficar vivo vai estar melhor depois. A resistência vai vencer os israelenses", diz ela.
A dona de casa mora na cidade de Tiro, na costa Sul do Líbano, onde um grupo das forças especiais israelenses entrou em combate com o Hezbollah depois de chegar em helicóptero e atacar um prédio de onde o Hezbollah estaria lançando foguetes.
"Hoje mesmo o Hezbollah expulsou os israelenses que tentaram atacar aqui em Tiro", diz ela.
Mas como é comum nesta guerra, os dois lados dizem que ganharam esta batalha: Israel admite que oito soldados ficaram feridos, mas diz que atingiu o objetivo de matar diversos militantes do grupo xiita.
Brasileiro no Hezbollah
Zeina Kourany é tia de um militante do Hizbollah de 17 anos e nacionalidade brasileira, Ibrahim Kourany, que morreu em combate na cidade de Maroun er Ras.
O grupo comunicou a morte dele à família na última terça-feira, mas eles não sabem exatamente quando ele morreu, nem quais as circunstâncias da morte.
"Isso a gente só vai saber depois da guerra, quando pudermos conversar com os companheiros dele", conta.
Ela tem outro sobrinho de 23 anos – também cidadão brasileiro – que ainda está combatendo pelo Hezbollah e de quem ela não quis revelar o nome.
Brasileiros
A mãe dos dois jovens militantes do Hizbollah é brasileira e o pai libanês.
Embora elas tenham a cidadania brasileira, eles nunca estiveram no país, como muitos dos brasileiros-libaneses que vivem aqui no país.
Ela diz que seus dois sobrinhos se alistaram para lutar pelo Hezbollah com o conhecimento e a aprovação da família.
"Nós aqui temos orgulho quando nosso filhos lutam pelo Líbano e morrem pelo Líbano", diz.
"Resistência"
Kourany se irrita com a imprensa ocidental, que comumente classifica o Hezbollah como grupo "terrorista".
A brasileira de Itapevi - que morou no Líbano de 1981 a 1985, passou seis anos no Brasil, e voltou em 1991 – diz que no sul libanês todos vêem o Hezbollah como um grupo de "resistência".
"Eles não saem daqui e vão atacar gente em outros lugares. Tudo o que eles querem é defender a terra do Líbano, e nem sabem o que tem depois", diz.
"Terrorismo é terem matado quatrocentas criancinhas aqui", diz, referindo-se aos ataques israelenses.
O governo do Líbano diz que mais de 900 civis já morreram no país desde o início do conflito, há mais de três semanas, e estima que um terço das vitimas eram crianças.
Israel
Israel afirma que todos os ataques são direcionados contra posições do Hezbollah, e acusa o grupo militante de se misturar à população civil para usá-la como escudo humano.
O atual conflito foi detonado quando o Hezbollah capturou dois soldados em território israelense e matou oito outros – quatro dentro de Israel e outros quatro que cruzaram a fronteira tentando resgatar os militares capturados.
Os israelenses dizem que a operação militar é reposta a uma agressão não provocada do grupo xiita, e que seu objetivo é impedir que o Hezbollah possa lançar foguetes contra Israel.
Os governos dos Estados Unidos e de Israel classificam o grupo Hezbollah de terrorista, enquanto o Reino Unido considera a "ala armada externa" do Hezbollah, mas não sua parte política, como tal.
O Hezbollah não está na lista de organizações terroristas da União Européia.