12 de junho, 2006 - 08h17 GMT (05h17 Brasília)
Lá estava no jornal: uma notícia que não era nem sobre a Copa do Mundo e nem sobre o Iraque. Algo mais terra-a-terra. Ou melhor, ar-a-terra.
Um jato da Alitalia, proveniente de Milão, com 104 pessoas a bordo, viu-se em apuros nas proximidades do aeroporto de Heathrow e dirigiu algumas palavras pedindo, não digo socorro, mas o auxílio dos controladores de tráfego aéreo ingleses.
O jato perdera quase que todo o seu equipamento de navegação ao se aproximar de Londres e queria agora uma mãozinha – ou muitas mãozinhas, o máximo que pudessem dispor.
A torre de controle viu-se ela também em apuros, estes no entanto de ordem linguística: ninguém lá entendeu o que o piloto italiano estava dizendo. O pedido internacional de “Mayday”, literalmente “Dia de Maio”, mas significando “Acuda! Acuda!”, foi universalmente adotado em 1948, primeiro pela marinha, e é uma anglicização do francês “m'aidez”. É, era aquela época em que, de repente, passamos todos a nos anglicizar em vez de afrancesar.
Suspendo o suspense. Não sou filme do Bruce Willis. Eu estava, felizmente no sentido mais do que figurado, aliterando no avião avariado da Alitalia tentando pousar em Heathrow. O piloto italiano, de voz impostada, cabelo e impecável camisa branca engomadas tinha um problema: seu inglês era uma josta.
Parece que, desde os tempos de adolescente, já riam dele quando tentava pronunciar o nome de atores e atrizes americanas. Só dava “Iênifer Anistonne” e outras senhoras e senhoritas misteriosas. Bem feito, digo eu. Quem manda dublar tudo quanto é filme. Uma das vantagens de filme legendado é ir pegando um pouquinho da língua dos outros.
“Dia de maio! Dia de maio!”
“Mayday Mayday!”, repito. Que é mais do que conseguiu o comandante italiano. O pessoal do controle aéreo ficou na mesma. O que cuidava do vôo chamou o companheiro do lado. “Que é que ele está dizendo?”, perguntou. O companheiro do lado arriscou, “Acho que ele está nos saudando e desejando boa sorte na Copa do Mundo”. “De jeito nenhum”, interveio um terceiro controlador que estava passando a caminho do lanche. Foi decisivo, “O comandante italiano gostou de sua voz e quer saber se você não quer tomar uns drinques com ele depois.”
Outras interpretações, algumas levianas, foram feitas, já que o dia não estava lá muito movimentado e controlador de tráfego aéreo (é fato sabido) tem muita sensibilidade e precisa de se estressar ao mínimo.
Os controladores do tráfego aéreo, no entanto, não sabem amar, conforme, em 1981, por ocasião de uma greve, o demonstrou o presidente Ronald Reagan, demitindo-os a todos.
O comandante italiano – chamemo-lo de Luigi Parmigiano, só de safarnagem – continuava lá em cima, firme, em meio à turbulência do aparelho, se esgoelando a pedir que limpassem a pista de aterrissagem de aviões, gente e bosta de cachorro, para seu descanso e de seus passageiros.
Urrava por um carro de bombeiros, para uma eventualidade. A urrar e se esgoelar, sempre em péssimo inglês, como desde a primeira vez em que discara o número da torre. Eu sei que não se disca, nem sequer se digita, para a torre de controle e os controladores, mas acho mais divertido imaginar que tenha sido assim.
Depois de algum susto, e nenhuma providência tomada em terra, o avião acabou pousando sem maiores problemas. O comandante Parmigiano ficou uma porção de tempo sentado na sala VIP considerando a vida e as dificuldades do idioma de Shakespeare e David Beckham. Os controladores de tráfego aéreo tiveram medo de ir lá falar com ele. Um deles, que ainda não surgira na história, aventurou o lugar-comum beirando o racista de que “intaliano é assim mesmo. Tudo temperamental.”
Foi assim que o controlador pronunciou: “intaliano”.