02 de junho, 2006 - 18h43 GMT (15h43 Brasília)
Guila Flint
de Tel Aviv
Poucos dias antes do 5 de junho, quando Israel completa 39 anos de ocupação dos territórios palestinos, a esquerda israelense se prepara para realizar uma série de protestos contra o boicote decretado contra a Autoridade Palestina.
"Basta de boicote, cerco e punição ao povo palestino!", diz um comunicado da Coalizão contra a Ocupação, que reúne 12 partidos políticos, movimentos pacifistas e grupos de direitos humanos israelenses.
A coalizão exige que Israel inicie negociações imediatas com o governo palestino liderado pelo Hamas. Israel se recusa a negociar com o Hamas, assim como tem se recusado a repassar para a Autoridade Palestina, boa parte do dinheiro recolhido com impostos nas fronteiras com os territórios palestinos.
Os Estados Unidos e a União Européia, principais doadores de ajuda econômica aos palestino, suspenderam o envio de dinheiro à Autoridade Palestina,enquanto o Hamas não abdicar da violência e reconhecer o direito de existência do estado de Israel.
'Basta!'
"Uma opção democrática deve ser respeitada e não punida, negociações com os representantes eleitos do povo palestino agora!", exige o comunicado e acrescenta "39 anos de ocupação – basta!".
Os organizadores esperam a participação de milhares de pessoas em uma manifestação marcada para este sábado, dia 3, no centro de Tel Aviv. Eles tambem planejam um comboio que deverá levar alimentos e medicamentos para a cidade de Nablus, na Cisjordânia, no dia 10.
Para o veterano ativista político e ex-deputado Uri Avnery, de 83 anos, líder do grupo Gush Shalom (Bloco da Paz), a história está se repetindo.
"Há 30 anos o governo israelense usava exatamente a mesma linguagem para boicotar a OLP (Organização de Libertação da Palestina), e proibia qualquer contato com os representantes palestinos dizendo que queriam 'destruir Israel' e eram 'arqui-terroristas'", disse Avnery à BBC Brasil.
"Naquela época eu iniciei um diálogo com a OLP e em 1982 fui o primeiro israelense que se encontrou com Yasser Arafat. Me chamaram de traidor, mas, 11 anos depois, Israel assinou o Acordo de Oslo com a OLP".
Diálogo
De acordo com Avnery, Israel deve respeitar a eleição palestina e iniciar um diálogo com o novo governo, liderado pelo Hamas.
E, como há 30 anos, Avnery já tomou uma atitude pioneira e se encontrou, em Jerusalém, com Mohamed Abu Tir, número dois da bancada parlamentar do Hamas.
"O mesmo processo se repete", disse ele. "No começo alguém quebra o tabu e abre o caminho, depois alguns aderem e o diálogo começa a envolver círculos mais amplos".
"A opinião pública, que no início fica chocada, começa a se acostumar com a idéia e, no final, o próprio governo transforma o diálogo em política oficial".
"Se trata de um processo difícil e revolucionário para os dois lados", acrescenta Avnery, "para líderes do Hamas também não é uma coisa simples realizar um diálogo politico com israelenses e dentro da organização este tema deverá provocar discussões profundas".
Para Avnery o boicote internacional ao governo do Hamas é um "escândalo sem precedentes".
"Esfomear um povo inteiro por sua opção democrática é um crime e me supreendo com a atitude da comunidade internacional", disse ele.
"Já houve muitos casos em que a comunidade internacional impôs sanções a regimes ditatoriais, mas acho que esta é a primeira vez que se declara um boicote com o objetivo de forçar a população a derrubar um governo que ela mesmo elegeu, democraticamente".
O deputado Jamal Zahalka, do partido Balad (Aliança Nacional Democrática), que representa os palestinos cidadãos de Israel, adverte que há uma "catástrofe humanitária iminente" nos territórios palestinos.
"Desde a vitória do Hamas, em janeiro, o volume da economia palestina se reduziu para 25%, milhões de pessoas que se encontram sem fontes de subsistência", disse ele, "o aparelho do Estado praticamente deixou de funcionar".
Shai Gorsky, do grupo Taayush (Coexistencia), diz que a falta de medicamentos nos territórios palestinos chega a um nível "que simplesmente está matando as pessoas".
Gorsky é um dos organizadores do comboio que levará medicamentos e alimentos à cidade de Nablus no dia 10 deste mês.
"Aqueles que pensam que a situação dos palestinos melhorou com a retirada unilateral da Faixa de Gaza, estão muito enganados, a situação nunca esteve pior, a ocupação e o sofrimento continuam".
"Não tenho grande simpatia pelo Hamas, mas esta foi a opção democrática dos palestinos, e Israel deve respeitá-la", disse Gorsky.
Adi Dagan, porta-voz da Coalizão das Mulheres pela Paz, afirmou que o objetivo principal dos protestos é lançar um apelo ao governo israelense e à comunidade internacional para que ponham um fim ao boicote.
"É muito importante que o mundo ouça a nossa voz, a voz de organizações israelenses que pedem o fim deste bloqueio, que está esfomeando um povo inteiro", disse a porta-voz.