30 de maio, 2006 - 09h40 GMT (06h40 Brasília)
A população do Timor Leste não é vítima apenas da violência na atual crise que vive o país: os boatos e a falta de informação confiável também têm mantido os timorenses reféns do medo.
Com uma mídia frágil e poucos telefones fixos, celulares ou computadores, a população se informa, na maior parte das vezes, a partir de conversas com vizinhos e conhecidos.
Como em um imenso telefone sem fio, o que mais prolifera são boatos infundados.
Nesta semana, por exemplo, circulou em Díli, a capital do Timor Leste, a história que o ministro dos Negócios Estrangeiros e Nobel da Paz, José Ramos-Horta, teria pedido para a população se armar e se defender contra a violência.
Notícia infundada
Houve quem afirmasse ter visto a notícia no único canal de televisão do país, a TVTL – o Timor tem ainda quatro rádios e três jornais, todos de audiência e tiragens bem limitadas.
Nenhum jornalista do canal confirmou ter ouvido ou gravado tal afirmação.
Também nesta semana falou-se que a casa da sobrinha do primeiro-ministro, Mari Alkariti, teria sido queimada na tarde de domingo por um grupo de manifestantes. Na verdade, uma loja de roupas no bairro Audian foi incendiada por um grupo não-identificado. O premiê ou sua filha não tem qualquer relação com a loja.
No dia do conflito de 28 de abril, entre a PNTL (Polícia Nacional de Timor Leste) e os manifestantes liderados pelo Tenente Gastão Salsinha, circulou em Díli que famílias de líderes do governo teriam fugido no barco Central Maritime, atracado na capital havia quase quatro anos.
O barco, que servia como hotel para a comunidade internacional, estava na realidade desativado havia mais de 3 meses e deixou a costa no dia seguinte do conflito sem nenhum timorense a bordo.
Quem vive em Díli, já se acostumou com a quantidade de informações incorretas e declarações falsas.
Jornalistas sabem que tudo precisa ser confirmado e com frequência perdem tempo indo a lugares onde nada acontece ou investigando histórias que nunca passaram de ficção.
Mas o impacto maior é para a população, que nunca sabe o que é ou não verdade e acaba sofrendo de maneira concreta com os boatos.
"Ouvimos dizer que igrejas e campos de refugiados seriam atacados e que a população passaria a ser alvo das gangues", disse o timorense Floriano Ferreira, 22 anos, que trabalha como tradutor.
Sem poder confirmar a veracidade da informação, ele preferiu deixar sua casa, no centro de Díli, e buscar abrigo na casa de uma amiga.
Um exemplo de como os boatos podem ganhar força no Timor ocorreu em 2 de janeiro de 2005, muito antes da atual crise.
Naquele dia, falou-se que um tsunami ia atingir as praias de Díli. O resultado foi a população fugindo de forma desesperada para as montanhas, levando apenas o essencial nas mãos, causando caos no trânsito, congestionamento das linhas telefônicas, inúmeros feridos e dois mortos. Tudo não passava de uma brincadeira de adolescentes.
Agora, há uma crise real no país, mas os boatos também tem contribuído para criar caos e medo.