12 de maio, 2006 - 20h13 GMT (17h13 Brasília)
Marcia Carmo
enviada especial a La Paz
Apesar das declarações do presidente boliviano Evo Morales e da reação do governo brasileiro, o ministro de Hidrocarbonetos, Andrés Soliz Rada, antecipou à BBC Brasil que novas reuniões foram marcadas a partir de segunda-feira com a Petrobras.
"As polêmicas passam", disse ele, quando perguntado sobre a guerra verbal entre Morales e o governo brasileiro.
Soliz Rada ficou surpreso ao ser informado que o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, não descartava a retirada do embaixador brasileiro da Bolívia: "Tomara que isso não ocorra".
Com a voz mais tranqüila do que em outros momentos desta disputa com o Brasil, o ministro negou, como divulgado pela imprensa, que teria dito que havia insinuações de intervenção militar brasileira na Bolívia, durante a preparação do decreto de nacionalização.
"Jamais disse coisa parecida. Nós falamos que uma das funções das Forças Armadas (nas refinarias das empresas privatizadas) era garantir o abastecimento ao Brasil. Temíamos algum tipo de sabotagem interna de gente que pudesse fechar as válvulas (de gás) e afetar o abastecimento ao Brasil", justificou.
O ministro boliviano, um dos principais mentores da nacionalização do gás e petróleo na Bolívia, afirmou que as discussões com o Brasil hoje podem ser divididas em duas frentes – uma estrutural e outra conjuntural.
"Os fatores conjunturais são as declarações e as polêmicas que têm pouca duração", disse.
"Os estruturais incluem o avanço das comissões binacionais que se reunirão a partir de segunda-feira."
A idéia da criação das comisssões para se negociar cada ponto da discussão surgiu na reunião de mais de cinco horas, realizada na quarta-feira, em La Paz.
Palavras
Participaram do encontro o ministro Soliz Rada, o presidente da petroleira boliviana YPFB, Jorge Alvarado, o ministro brasileiro das Minas e Energia, Silas Rondeau, e o presidente da Petrobras, Sergio Gabrielli.
Depois da reunião, eles divulgaram um comunicado conjunto, onde afirma-se que a Bolívia não poderá, por exemplo, definir, unilateralmente, o aumento do gás vendido ao Brasil.
Ficou combinado ainda que o governo boliviano pagará – provavelmente com gás – para ter o controle das empresas privatizadas, incluindo a Petrobras.
Este é um acordo que, segundo autoridades brasileiras e analistas bolivianos, mostra que a nacionalização é "suave" diante da impressão inicial.
"Nós vamos pagar para ter o controle dos negócios. Não queremos confisco", disse o presidente da YPFB.
Entre duas outras medidas que preocuparam os investidores e executivos estrangeiros estava a de que as auditorias nas empresas começariam esta semana - o que não ocorreu.
A outra medida, anunciada por Morales e por Soliz Rada, era sobre a presença de diretores indicados pelo governo boliviano nas empresas transnacionais - fato que, pelo menos até o momento, segundo assessores do governo, também não foi concretizado.
Segundo o ministro Soliz Rada, o comunicado conjunto divulgado na quarta-feira é claro e confirma que o caminho é o do entendimento entre o governo e a Petrobras.
"A partir deste documento, o Brasil respeita a soberania da Bolívia para nacionalizar seus hidrocarbonetos. Respeita o decreto e ajudará a implementá-lo".
"O restante", segundo ele, "são palavras e elas passam".