10 de maio, 2006 - 11h43 GMT (08h43 Brasília)
Márcia Bizzotto
de Bruxelas
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentará avançar nas negociações sobre a Rodada de Doha durante a reunião de cúpula entre União Européia (UE), América Latina e Caribe, nos próximos dias 11 e 12 na capital austríaca, Viena.
O tema não faz parte da agenda oficial do encontro mas, segundo a Missão do Brasil na UE, Lula pretende aproveitar a ocasião, quando estarão reunidos 60 chefes de Estado e de Governo, para resgatar o debate sobre comércio mundial, setor de maior interesse nas relações multilaterais.
Antes mesmo do início da cúpula, representantes da UE já admitem o fracasso do grande objetivo do encontro: os tratados de associação entre a UE e os três blocos latinoamericanos.
Com o Mercosul, o impasse nas negociações tornou impossível cumprir o prazo inicialmente esperado para a a conclusão do acordo. Mais recentemente, a crise na Comunidade Andina de Nações, provocada pelo anúncio da Venezuela de que deixaria o grupo (também integrado por Bolívia, Peru, Equador e Colômbia), fez com que a UE manifestasse dúvidas quanto à abertura de negociações com o bloco.
Os europeus só devem cumprir o que foi previsto com o Sistema de Integração Centroamericana (SICA, formado por Guatemala, Nicarágua, El Salvador, Costa Rica, Honduras e Panamá).
Falência?
"Se não iniciarmos essas negociações (com a América Central) e não estabelecermos um calendário realista em Viena, provavelmente, esta será uma reunião falida", afirmou o presidente do Parlamento Europeu, Josep Borrell.
Para o Brasil, que há meses já descartou atingir sua meta principal, "esta, como todas as cúpulas deste tipo, não será uma reunião para resultados, mas para relacionamentos e debate político", afirmou à BBC Brasil a embaixadora brasileira para a UE, Maria Celina de Azevedo Rodrigues.
"A América Latina tem novos governantes desde a última cúpula, há dois anos. Esta será uma ótima oportunidade para renovar as relações entre as regiões."
A embaixadora ressaltou que "o principal encontro político" entre europeus e latino-americanos "ganha ainda mais importância este ano pelo número de países envolvidos".
Com a participação de Bulgária e Romênia, futuros membros da UE, esta será a maior cúpula já realizada pelos europeus. O encontro também será o primeiro do tipo do qual participará o secretário geral da ONU, Kofi Annan.
O presidente Lula estará acompanhado do chanceler Celso Amorim e da própria embaixadora, além de altos representantes do governo e assessores, em uma delegação de 20 pessoas.
Agenda
A agenda oficial contém 12 tópicos de interesse político, econômico e social, que incluem a promoção da democracia, o combate ao narcotráfico e à pobreza, a proteção ao meio ambiente, a defesa dos direitos humanos, além de discussões sobre imigração e energia.
Além de tentar debater a Rodada de Doha e as condições para dar um novo passo nas negociações para o tratado entre o Mercosul e a UE, Lula dará prioridade à valorização da ONU como organismo multilateral e à reforma na organização.
A América Latina espera que o Banco Europeu de Investimentos anuncie uma ampliação da linha de crédito para a região e a criação de um mecanismo para facilitar financiamentos, propostos pelo Parlamento Europeu.
Por sua parte, os europeus esperam que a reunião sirva para divulgar o potencial dos países do Leste, os mais recentes membros da UE.
Eles também darão prioridade ao debate sobre as Metas do Milênio, estabelecidas pela ONU para 2015, e à criação de um Fundo de Solidariedade Bi-regional e de um centro conjunto de prevenção de conflitos.