06 de maio, 2006 - 21h41 GMT (18h41 Brasília)
Claudia Jardim
em Caracas
As tensões entre Peru e Venezuela, que chamaram de volta seus embaixadores na semana passada, parecem ter começado a se dissipar, pelo menos no plano diplomático.
O vice-presidente venezuelano, José Vicente Rangel, anunciou que seu país está aberto ao diálogo com o Peru, após a retirada do seu embaixador, Manuel Martínez Ramírez, da capital peruana.
"Estas ações não são por revanche e sim por dignidade," afirmou Rangel em nota à imprensa.
Seguindo o mesmo tom, o chanceler peruano, Oscar Maúrtua de Romaña, assegurou que não há ruptura nas relações diplomáticas. Em nota oficial qualificou como “soberana” a decisão venezuelana.
Com a saída das missões diplomáticas, as relações entre Venezuela e Peru ficam limitadas aos escritórios comerciais no outro país.
Ação e reação
Dia 30, o presidente peruano, Alejandro Toledo determinou a retirada de seu embaixador de Caracas, acusando o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, de interferir em assuntos internos de seu país.
O mandatário venezuelano tomou a mesma decisão, poucos dias depois.
"Não nos restou outra coisa. Ordenei a retirada do nosso embaixador com muita dor”, afirmou o presidente venezuelano, Hugo Chávez durante entrevista coletiva em La Paz, na última sexta-feira, pouco antes do encontro com os presidentes do Brasil, Argentina e Bolívia em Porto Iguaçu para discutir a nacionalização do gás e petróleo bolivianos.
A crise entre os dois países teve início há uma semana. Alan Garcia, ex-presidente peruano e candidato à reeleição, qualificou a Chávez como “sem vergonha” por criticar os acordos comerciais firmados entre Peru e Colômbia com os Estados Unidos, enquanto Venezuela continua enviando petróleo a esta nação.
Chávez por sua vez definiu a Garcia como “ corrupto” e o acusou de ser “porta-voz” do imperialismo estadunidense.
O candidato de centro-esquerda que enfrentará o segundo turno das eleições no próximo 4 de junho com o nacionalista Ollanta Humala, reiterou seu apoio aos acordos bilaterais com Washington.
Na avaliação do governo venezuelano, a assinatura destes acordos viola os príncipios da Comunidade Andina de Nações (CAN), composta por Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela. Por essa razão, Chávez decidiu retirar seu país do bloco andino.
O episódio CAN e o bate-boca entre Garcia e Chávez foram suficientes para levar Toledo a formalizar uma denúncia na Organização dos Estados Americanos (OEA) acusando o mandatário venezuelano de “interferir em assuntos internos” peruanos.
“Talvez seja a última oferta que Toledo faz ao império, já que está a ponto de acabar sua presidência”, declarou o vice-presidente venezuelano.
Toledo terminará seu mandato com o pior índice de popularidade entre os chefes de Estado do continente.
Segundo pesquisas de opinião realizadas no país, apenas 7% dos peruanos aprovam sua gestão.