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02 de maio, 2006 - 03h09 GMT (00h09 Brasília)

Márcia Carmo
de Buenos Aires

Argentinos suspendem bloqueio em estrada para Uruguai

Os moradores da cidade argentina de Gualeguaychú decidiram suspender o bloqueio na principal estrada de acesso ao Uruguai.

A decisão foi tomada após quase quatro horas de discussões, nas proximidades do rio Uruguai, que divide os dois países.

A liberação do trânsito foi marcada para esta terça-feira. Mas os organizadores do protesto avisaram que voltarão a interromper o tráfego na rodovia 136, caso o presidente Néstor Kirchner "não cumpra a palavra" de entrar com processo contra o Uruguai no Tribunal Internacional de Haya.

"Nós voltaremos para cá, imediatamente, se o presidente não tomar esta medida até domingo", avisaram manifestantes às televisões argentinas. Segundo o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Jorge Taiana, o processo será mesmo implementado.

Três meses

Foram cerca de três meses de bloqueio do trânsito e sua suspensão ocorre a quatro dias da visita que o presidente Néstor Kirchner fará, nesta sexta-feira, à Gualeguaychú, acompanhado, segundo assessores do governo, por dezoito dos 23 governadores do país.

Neste período, o protesto reuniu comerciantes, produtores de mel, donas de casa, aposentados, engenheiros, médicos, entre outros.

O objetivo foi tentar interromper a construção de duas fábricas de pasta de celulose na cidade uruguaia de Fray Bentos, às margens do rio Uruguai.

Os moradores de Gualeguaychú, em frente à Fray Bentos, desistiram de apelar ao governo local e reagiram, então, com uma manifestação que reuniu, há um ano, cerca de 40 mil participantes.

No domingo, a concentração reuniu oitenta mil pessoas, de acordo com os organizadores. Eles voltaram a protestar contra as obras da espanhola Ence e da finlandesa Botnia.

Juntas, segundo o governo uruguaio, elas representam o maior investimento da história do país. E, ao mesmo tempo, passaram a ser, de acordo com diferentes analistas, um "ponto decisivo" da discórdia entre os sócios do Mercosul.

No final da noite de segunda-feira, o jornal uruguaio El País informou que o presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, está reunindo apoio político para que o país deixe de ser membro pleno do Mercosul. Vázquez faria o anúncio nesta quinta-feira.

Se a decisão for concretizada, o Uruguai passará a ter o mesmo status que o Chile podendo realizar acordo bilateral com os Estados Unidos, como vem ameaçando.

Críticas

Nos últimos dias, Vázquez tem criticado a falta de institucionalidade do bloco.

Atualmente, a Argentina é presidente temporária do Mercosul e para o presidente Kirchner a disputa pela construção das fábricas de papel é uma questão bilateral e não regional, como entende Vázquez.

O clima tenso entre os dois países levou Vázquez a determinar que soldados da Gendarmeria (tropa de choque que cuida das fronteiras) ocupassem a ponte que liga seu país a Argentina para evitar que manifestantes atravessem para território uruguaio.

Como disse um representante do governo uruguaio, é uma história que todos sabem como começou, mas ainda não está claro como vai terminar.

"O Uruguai deixou há muito tempo de ser colônia e os argentinos parecem não querer ver essa realidade", afirmou o ex-presidente Jorge Batlle, até pouco tempo inimigo político de Vázquez.

Ele é um defensor ferrenho da saída do Uruguai do Mercosul e foi em seu governo que foram assinados os contratos com a Ence e a Botnia.