25 de abril, 2006 - 12h30 GMT (09h30 Brasília)
Guila Flint
Enviada especial a Ramallah (Cisjordânia)
Três meses depois da vitória do Hamas nas eleições parlamentares palestinas, ainda não há uma divisão clara dos poderes entre o grupo e o movimento Fatah, que foi a força hegemônica na política palestina por mais de 40 anos.
O líder do Fatah e da Organização pela Libertação da Palestina (OLP), Mahmoud Abbas, mantém o cargo de presidente da Autoridade Palestina (AP), para o qual foi eleito um ano antes.
Mas o governo da AP é exclusivamente formado pelo Hamas. Com dois programas contraditórios nos principais centros do poder Executivo, cria-se um modo de governar bastante peculiar.
"Sem dúvida, existem dois programas políticos diferentes", diz o vice-ministro das Relações Exteriores, Ahmed Soboh, em entrevista à BBC Brasil.
"Considero absolutamente negativo que o Hamas seja governo e oposição ao mesmo tempo. O exercício do poder acarreta responsabilidade, e essa responsabilidade inclui o respeito a acordos assinados anteriormente."
Coabitação
Soboh, que foi embaixador da OLP no Brasil de 1989 até 1995, foi nomeado vice-ministro por decreto direto do próprio presidente Mahmoud Abbas e tem seu gabinete em Ramallah, na Cisjordânia.
Já o cargo de ministro do Exterior é ocupado por Mahmoud Azahar, nomeado pelo Hamas. e que se encontra na Faixa de Gaza. Ele está proibido pelo governo israelense de se deslocar à Cisjordânia.
De acordo com Soboh, os dois conversam, "quando necessário", por telefone ou por vídeo-conferência.
"Ainda não está claro como essa coabitação vai funcionar", disse o vice-ministro.
"Mahmoud Azahar é ministro das Relações Exteriores a nível administrativo, mas politicamente as relações exteriores competem principalmente ao presidente Abbas", afirmou Soboh.
Porém o ministro Azahar já está conduzindo uma política externa que contradiz a posição do presidente Abbas.
Ele tem rejeitado os acordos de paz entre Israel e os palestinos e se voltado para os países árabes e islâmicos para pedir apoio político e econômico.
E, enquanto Abbas condena em termos duros os atentados suicidas contra civis israelenses, o Hamas os define como "atos de legítima defesa".
"O Hamas ganhou eleições democráticas, esse não foi um golpe de Estado. Portanto o Hamas não pode quebrar todos os compromissos anteriores da Autoridade Palestina."
Segundo Soboh, a Constituição palestina estabelece que as relações exteriores e as negociações com Israel estejam diretamente subordinadas ao presidente.
"As relações internacionais são patrimônio nacional e não deste ou de outro partido, seja Hamas ou Fatah. Portanto competem à OLP, que representa todo o povo palestino."
"As embaixadas palestinas no exterior são da OLP, a política externa é da OLP, e o reconhecimento internacional foi dado à OLP."
"Mas também não estamos aqui para fazer fracassar o governo eleito democraticamente. Nós respeitamos os resultados das eleições, mas o novo governo deve agir de acordo com a Constituição e, segundo ela, as relações exteriores são atribuições do presidente."