18 de abril, 2006 - 06h46 GMT (03h46 Brasília)
Caio Blinder
de Nova York
Os Estados Unidos não são ainda uma república das bananas. Militares (da ativa e da reserva) raramente escorregam e vão à carga contra a liderança civil.
Por esta razão, é ruidoso o coro de generais de pijama nos últimos dias pedindo a demissão do secretário da Defesa Donald Rumsfeld por sua condução da guerra do Iraque.
O governo Bush faz o que pode para blindar o chefe do Pentágono dos ataques. Mas não há como protegê-lo de um fato. O punhado de militares da reserva que vieram a público para alvejar Rumsfeld reflete um ressentimento generalizado nos círculos militares com o secretário de Defesa, um lendário sobrevivente das guerras burocráticas em Washington.
David Ignatius, o antenado colunista de questões de segurança nacional do jornal Washington Post, estima que mais de 75% dos oficiais da ativa gostariam que Rumsfeld partisse.
"Mal planejado"
Esta chamada "revolta dos generais" é um novo lance da controvérsia sobre se a invasão do Iraque foi, para começo de conversa, mal planejada. Na fuzilaria contra Rumsfeld deve ser questionado se ele não é um alvo fácil no jogo de culpa. Será que todos estes generais de pijama hoje pontificando em livros, comentários e entrevistas merecem estar fora da linha de tiro?
Um dos focos das críticas a Rumsfeld é que ele descartou as recomendações de militares experientes, como o ex-chefe do Estado-Maior do Exército, general Eric Shinseki, de que a ocupação do Iraque exigiria centenas de millhares de soldados.
Para dar uma medida, há cerca de 130 mil soldados americanos hoje no país.
Com sua insistência de uma investida leve e rápida, Rumsfeld abandonou a doutrina advogada pelo ex-secretário do Estado e ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Colin Powell, de que os americanos só deveriam ir à carga com força avassaladora.
Como observou nesta semana a revista Time, Rumsfeld queria provar que a Doutrina Powell era obsoleta. É provável que ela retorne à ordem do dia.
A saraivada de críticas sobre o número de soldados americanos que deveriam ter participado da invasão e da ocupação encobre uma questão mais importante. De fato, mais tropas eram necessárias, mas não americanas e sim iraquianas. Uma decisão mais desastrosa do chefe do Pentágono foi desmantelar o Exército iraquiano logo após a derrubada de Saddam Hussein.
Uma avassaladora força militar americana, nos moldes da Doutrina Powell, não pode ser vista como uma solução mágica, ou, recorrendo ao trocadilho, a bala de prata.
"Finesse"
A indulgência dos Estados Unidos é ter fé no seu poder descomunal, mas no Iraque, como em tantas outras crises, existe uma complicada equação política e cultural. É uma crise que exige "finesse" e não força bruta.
O historiador britânico Niall Ferguson, nostálgico dos tempos imperiais do seu país, duvida que os americanos tenham estômago para empreitadas geopolíticas ou coloniais de longa duração. E o Iraque exige sangue, suor, lágrimas, dinheiro e paciência.
Como fulminou Ferguson, a aspiração dos mais brilhantes jovens americanos "não é governar a Mesopotâmia, mas administrar a MTV".
O debate sobre as responsabilidades (e culpas) de Rumsfeld no que deu errado no Iraque é limitado. A discussão mais estratégica é se o governo Bush realmente está consciente do que está em jogo nos esforços para transformar o Oriente Médio.
No presente imediato existe esta bolsa de apostas se Rumsfeld cai ou não cai.
Michael O' Hanlon, analista militar da Instituição Brookings, em Washington, estima que o presidente não pode se dar ao luxo de despachar o seu secretário de Defesa, pois assim estaria admitindo o seu próprio fracasso no Iraque.