31 de março, 2006 - 09h31 GMT (06h31 Brasília)
Os grandes super-heróis das histórias em quadrinhos são aqueles da época do gibi.
Gibis em seu sentido genérico, nenhuma exclusividade com a publicação de "O Globo", embora, para ser franco, os melhores estavam, lá pelos anos 40, ou no "Gibi", de segunda, quarta e sexta, ou no "Gibi Mensal", ou ainda no "Globo Juvenil", de terça, quinta e sábado, formato tablóide, pegando ainda o "Globo Juvenil Mensal".
Lá estavam eles, por 1.500 réis, os mensais, quase 100 páginas:
Super-homem, Batman, Tocha Humana, Príncipe Submarino, Capitão Marvel e algumas dezenas de outros. O "Homem-Bala" e a "Mulher-Bala" eram no "Guri Mensal".
Também tinha o "Lobinho", mas faltava a ele, ou a mim, um super-herói de bom tamanho e boa lembrança.
Eram em branco e preto e os balões de diálogo impressos e não desenhados a bico de pena.
Mesmo assim, era de festa o dia em que apareciam no jornaleiro da esquina.
"Major Auri-verde"
Confesso que nunca senti falta de um super-herói brasileiro.
Um "Tenente Brasil" ou "General Moura", com ou sem regime militar, não me alegrariam o dia como um "Capitão América", mesmo sem escudo e "Bucky".
Fôlego curto o nosso, sempre estivemos também mais para o humor, para a tira em quadrinhos.
De super mesmo, acho que só a "Super Mãe", do Ziraldo. De resto, era e é Maurício de Souza, o extraordinário Henfil e o Jaguar, criador dos "Chopnics", tira diária até o "Pasquim" levar o passe e a gozação em cima da "tchiurma" de Ipanema passar a ser bizantina.
Uma pequena correção: dentro dos "Chopnics", o BD, aquele barbudinho, principal personagem, tinha um alter-ego que se auto intitulava "Capitão Ipanema", sempre acompanhado de seu fiel companheiro, o ratinho Sig, que virava "Otar".
Destituído de super-poderes, ou até mesmo poderes medíocres, acho que procuravam um chope bem tirado e não um vilão mais atirado. Mas sou suspeito para falar.
Afinal durante alguns anos escrevi roteiro e diálogos para a tira.
Em nome de Alá
Fico sabendo agora que, em maio, o mundo muçulmano ganhará os "Teshkeel Comics", uma bolação de Naifal-Mutawa, um kuwaitiano de 34 anos, educado nos Estados Unidos, e que vidrou nas publicações da Marvel.
Não a Marvel, de meu idolatrado Capitão Marvel (em quem Billy Batson, jovem locutor da estação Whiz, se transformava depois de dizer "Shazam"), mas a Marvel do Stan Lee. Tudo bem.
O jovem kuwaitiano, depois de se formar em psicologia e escrever literatura infantil, passando por Londres, em 2003, imaginou perto de 70 super-heróis muçulmanos.
Isso numa corrida de táxi, daqueles pretões, quero crer, que deve ter levado algum tempo e custado uma nota.
Acrescente-se que 99 são as qualidades que, segundo a religião islâmica, Alá possui. Naifal-Mutawa, mais umas milhas e libras, poderia ter chegado a 99
Jabbar e Mumita
No momento, caricatura, charge política e, no bolo, histórias em quadrinhos, são um assunto meio delicado no mundo islâmico.
A trinca Alá-Corão-HQ constitui fenômeno a ser acompanhado com o maior interesse.
Mais tarde, ainda em 2006, sairá uma versão em inglês. (Sairá?) Nos meios quadrinistas, é grande a expectativa, e já vazaram os temas das primeiras historietas dos super-heróis muçulmanos, todos baseados em arquétipos islâmicos, como é o caso de Jabbar, um parrudíssimo saudita com o poder de aumentar ou diminuir de tamanho à vontade.
Ah, e tem também o Mumita, um muçulmano português, dos Emirados Árabes, que sempre sabe quando alguém está mentindo.
Atenção: uns bons 80% dos super-heróis usarão malha justíssima, conforme reza, ou ora, a tradição. Veremos o que veremos.
Por via das dúvidas, berro "Shazam!" e já não está mais aqui quem falou, entregou, quebrou sigilo, por aí.