28 de março, 2006 - 07h07 GMT (04h07 Brasília)
Diogo Mainardi, colega de mesa no programa Manhattan Connection e colunista de Veja, estava na dúvida sobre como deveria tratar o ex-presidente FHC, nosso convidado de domingo passado. Diogo achava que "presidente" era puxa-saco, submisso e subalterno.
Durante o programa, eu perguntei a ele na frente do presidente como decidira tratar o convidado e, antes que ele respondesse, o próprio FHC sugeriu "você". No Brasil, disse ele, todo mundo me chama de "você" nas ruas. O Diogo adotou o "você".
Quando ainda era presidente, FHC participou do programa e o Francis decidiu tratá-lo por Fernando. Na mesa, entre nós, houve um certo constrangimento mas o presidente, se teve algum, disfarçou muito bem e tocou pra frente com Francis fernandando sem parar.
Eu não. Para mim, uma vez presidente, sempre presidente. Até porque, se foi um presidente canalha ou deposto, tem que aguentar o peso do título. Governador e senador também, a menos que tenhamos sido íntimos na fase pré-política.
Na década de 70, fui jantar com o Paulo Francis e com o governador Lacerda em Nova York. Era uma reconciliação entre os dois depois de anos de brigas e insultos.
O endiabrado e genial político carioca já estava banido da política, meio gordo e um pouco envelhecido, mas apareceu no restaurante todo bronzeado com uma camisa cor-de-rosa desabotoada no peito e um colar de ouro no pescoço. Irradiava cafonice.
Durante a conversa, o Francis me deu uma bronca porque, para mim, Lacerda era "senhor" e "governador". Até nu.
"Pare com este negócio de governador", insistia o Francis. O nome dele é Carlos. Intimidade e afeto instantâneos.
O governador, apesar da cafonice, estava simpatissíssimo e brilhante mas, na minha juventude, ele tinha sido a encarnação do demônio.
Lá em casa, era conhecido como o Corvo e quando alguém falava o nome dele batia três vezes na mesa. Como, depois de meia hora, eu ia chamar o homem de "Carlos"? Nem quando a conversa caiu no deboche e na fofoca.
Fernando Henrique Cardoso tem fama de vaidoso e elitista, mas já participou quatro vezes do nosso programa - é o convidado recordista - e nunca saiu de tucano para pavão.
A transição dele, de presidente para ex, é uma boa história. Passou o último dia do mandato cheio de pompa e circunstância, tranferindo faixa, ouvindo discursos e cornetadas, subindo e descendo de Rolls Royce, cercado de guarda-costas.
À noite, entrou num avião e foi para Paris. De manhã, tomou um banho, vestiu-se e entrou sozinho no metrô para visitar um amigo. Ser ex tem seus encantos, especialmente em Paris...