23 de março, 2006 - 05h22 GMT (02h22 Brasília)
Danny Wood
de Madri
O grupo separatista basco ETA declarou cessar-fogo várias outras vezes antes, mas a diferença agora é que o comunicado menciona explicitamente um "cessar-fogo permanente". Isso nunca aconteceu antes.
Durante os anos 80, vários cessar-fogo foram anunciados, alguns com um prazo limite de 60 dias.
Em 1998, o grupo declarou uma trégua "unilateral e por tempo indeterminado" que levou a negociações secretas com o governo conservador de Jose Maria Aznar.
Essas negociações falharam e os ataques a bomba recomeçaram um ano depois.
'Dia histórico'
Alguns analistas acreditam que o novo anúncio do ETA possa realmente representar o início de um processo de paz na região basca.
"O ETA nunca anunciou um cessar-fogo permanente desta natureza e isso significa que, mesmo que eles não gostem da maneira como as negociações de paz se dêem, será difícil voltar atrás", afirmou o analista político Charles Powell, da Universidade San Pablo, de Madri.
Até agora, a resposta da maioria dos líderes políticos espanhóis tem sido otimista, mas cautelosa.
Falando oficialmente sobre o anúncio, o primeiro-ministro Jose Luis Rodriguez Zapatero disse que depois de tantos anos de sofrimento o caminho para a paz na região basca será longo e difícil.
O premiê diz que é essencial seguir por esse caminho com certeza, segurança e responsibilidade.
A cautela foi repetida pela maior parte dos outros líderes políticos, que pediram por prudência até que o ETA mostre ações, não apenas palavras.
Mesmo assim, muitos acreditam que o anúncio marque uma nova etapa.
O presidente da região basca, Juan Jose Ibarretxe, disse que a quarta-feira foi um dia histórico.
O momento da declaração provocou surpresa.
No início deste ano, Zapatero anunciou que o início de um processo de paz para o conflito poderia ser possível.
Mas o que se seguiu a isso foi uma série de ataques a bomba que parecia colocar a idéia de lado.
O ETA, no entanto, não matou ninguém em um ataque nos últimos três anos e alguns analistas dizem que os mais recentes tinham apenas o objetivo de mostrar ao governo que o grupo existia ainda e para proporcionar uma posição de barganha mais vantajosa em um eventual processo de paz.
Fraqueza?
O governo espanhol tem dito, por cerca de três anos, que o ETA está em um de seus momentos mais fracos. Acredita-se que existam apenas cerca de 30 integrantes operando em tempo integral.
A cooperação recebida das autoridades francesas tem tido um papel importante na decadência do grupo - por muitos anos, vários suspeitos já não podem mais buscar refúgio na França.
Além disso, existe, é claro, a oposição popular.
Milhões de espanhóis têm ido às ruas ao longo dos anos, dentro e fora da região basca, para se opor às ações do grupo.
Há também a questão dos mais de 700 integrantes do ETA que estão presos.
Muitos fazem pressão para que a liderança do grupo consiga tirá-los da cadeia.
A única maneira de obter isso é negociar com o governo espanhol, e a condição sempre foi o fim da violência.
Ainda não está claro quais serão os próximos passos. Não há um plano de paz.
Já se sabe que o ETA quer conversar com o governo espanhol e, ao mesmo tempo, realizar negociações separadas com grupos políticos bascos.
Zapatero disse que ele irá levar algum tempo para decidir o que fazer em resposta ao anúncio de cessar-fogo.
Nos próximos dias, o premiê estará realizando uma série de encontros com líderes políticos. O primeiro será com o líder da oposição, Mariano Rajoy.