20 de março, 2006 - 14h06 GMT (11h06 Brasília)
Alan Johnston
de Gaza
O fracasso dos esforços do grupo radical islâmico Hamas para formar uma coalizão ampla deve tornar sua tarefa à frente do governo palestino ainda mais complicada e facilitar a atitude de Israel de classificar o novo governo como “terrorista”.
Após a recusa das demais facções palestinas em participar de uma coalizão, o Hamas deve formar sozinho o próximo governo palestino – e sofrer pressões de forças poderosas internas e externas.
A recusa do partido de reconhecer Israel está no centro de seu isolamento.
O Hamas argumenta que reconhecer Israel seria legitimar a ocupação no território palestino. E o Hamas não considera como território ocupado apenas a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental, mas todo o território de Israel.
Essa foi a questão central que levou o partido Fatah a dizer que seria impossível participar do novo governo.
O Fatah dominou a política palestina por décadas até ser derrotado pelo Hamas nas eleições parlamentares de janeiro.
Obstrução
Com o Fatah na oposição, o grupo deve fazer de tudo para obstruir o novo governo. Alguns membros do Fatah mal conseguem disfarçar seu desejo de ver o projeto do Hamas fracassar, o que abriria o caminho para o retorno do grupo ao poder.
Uma coalizão ampla também daria ao novo governo uma imagem mais moderada. As relações com americanos e europeus – que consideram o Hamas uma organização terrorista – poderiam ser um pouco mais fácil.
Eles ameaçaram cortar os fluxos importantes de ajuda financeira para um governo liderado pelo Hamas, a menos que o partido modere sua atitude em relação a Israel.
Os líderes do Hamas dizem confiar que qualquer corte de ajuda do Ocidente será compensado com contribuições dos mundos árabe e islâmico. Mas muitos palestinos somente acreditarão nisso quando o dinheiro começar a chegar.
'Administração terrorista'
Os israelenses estão alarmados com a ameaça representada pelo crescimento do Hamas. Seus homens-bomba já atacaram diversas vezes em Israel.
O Hamas vem respeitando um cessar-fogo por mais de um ano, apesar das freqüentes provocações do Exército israelense, e é pouco provável que retome a ofensiva agora.
Mas as declarações de seus líderes ainda mantêm o tom radical e deixam claro que o grupo ainda deseja a destruição de Israel como objetivo final, talvez daqui a algumas gerações.
Israel reclama da “ausência de um parceiro para a paz”, o que pode trazer vantagens para a sua própria posição.
O projeto do partido Kadima, favorito nas eleições israelenses do próximo dia 28, é estabelecer as fronteiras definitivas do país. O esquema envolve a consolidação da presença israelense em grandes porções da Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.
Os palestinos reclamam de que quase todas as exigências do Ocidente por moderação são dirigidas a eles, enquanto as ações israelenses que podem ser extremamente prejudiciais a qualquer perspectiva de paz quase sempre passam em branco.
Mas se houver, eventualmente, alguma objeção aos planos de Israel para a Cisjordânia, os israelenses argumentarão que sua imposição de uma “solução unilateral” é razoável.
Eles dirão que não se pode esperar que eles negociem acordos com o “regime pária” do Hamas.