08 de março, 2006 - 23h21 GMT (20h21 Brasília)
Andrea Wellbaum
Nada de cerimônias pomposas e roupas de festa. A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Newham, um dos bairros mais carentes de Londres, fugiu do padrão dos compromissos realizados pelo presidente até então na capital britânica.
Como disse o vice-primeiro-ministro britânico John Prescott "após passar pelo palácio real era hora de conhecer o palácio do povo".
Conhecido como "The Hub" (O Centro), o centro comunitário visitado por Lula é um projeto de revitalização do bairro, financiado pelo gabinete do vice-primeiro-ministro e administrado pela população local.
O prédio abriga uma série de serviços básicos para a comunidade, como creche, atendimento médico, farmácia, uma lanchonete com alimentos saudáveis, internet gratuita e um centro da polícia metropolitana.
Depois de Lula ser recebido por duas crianças brasileiras, que entregaram um buquê de flores amarelas para a primeira-dama Marisa Letícia, Lula bombardeou Prescott com perguntas sobre o funcionamento e o financiamento do centro comunitário.
"O nosso gabinete deu 50 milhões de libras para o projeto e a comunidade sentou para discutir como este dinheiro deveria ser gasto. O resultado foi este centro e outro parecido com este aqui perto", explicou o vice-primeiro-ministro.
Queda na criminalidade
O projeto de revitalização do gabinete do vice-primeiro-ministro britânico deve ser concluído em 2010. O bairro deve passar por outras melhorias, já que 60% das atividades dos Jogos Olímpicos devem ser realizadas ali.
Segundo Prescott, as taxas de desemprego e criminalidade diminuíram na região após a abertura dos dois centros, há um ano e meio.
Isso não quer dizer, no entanto, que elas não preocupem mais. De acordo com a polícia metropolitana de Londres, de janeiro de 2005 a janeiro deste ano o número de crimes no bairro aumentou 6,2% em relação a 2004, enquanto a cidade como um todo registrou 3,9% menos crimes no mesmo período.
Newham também é o terceiro bairro com a maior taxa de desemprego: 11,7% de seus habitantes não trabalham, enquanto que em Londres 7,5% da população não tem emprego.
Depois de ouvir as explicações de Prescott sobre o centro comunitário, Lula foi recebido com um sonoro "olá" por um grupo de adolescentes no salão de festas do prédio, onde eles apresentaram dois números de dança.
O primeiro era uma animada salsa, durante a qual os dançarinos se remexeram ao som de uma música latina.
O segundo, mais longo e aparentemente mais próximo do gosto dos adolescentes, era um número de street dance, que todos executaram com muita desenvoltura.
Durante toda a apresentação, o presidente apresentava um largo sorriso no rosto e demonstrava estar entretido com a dança dos jovens.
No final, ele e Prescott foram presenteados com uma miniatura do típico ônibus londrino, o Routemaster.
Futebol
Depois disso, outro presente para Lula. Como na maioria dos eventos dos quais participa, o presidente foi mais uma vez associado ao futebol brasileiro: recebeu uma camisa do time local, o West Ham United, com o número dez e seu nome escrito nas costas.
"Logo, logo eu vou ser chamado aqui para jogar", brincou o presidente, sorrindo.
Como Lula chegou atrasado ao "The Hub", a visita ao segundo centro comunitário, o Grassroots, foi cancelada para que o presidente pudesse chegar a tempo em seu compromisso seguinte.
Antes de entrar no carro, no entanto, Lula deu uma folga aos tradutores - que intermediaram toda a conversa entre ele e Prescott - e colocou os seguranças para trabalhar ao se dirigir até a barreira de isolamento do local para cumprimentar um grupo de cerca de 20 brasileiros que o aguardavam durante toda a visita.
Marisa beijou várias crianças e Lula disse que só não podia ficar mais tempo ali porque tinha um outro compromisso.
Quem esperou na chuva por mais de 1h30 para alguns segundos perto do presidente e da primeira-dama, disse que valeu a pena.
"Ele é muito popular e eu sabia que ele iria vir aqui. Porque ele é uma pessoa maravilhosa, ele quebra o protocolo mesmo e vem!", afirmou Eunice Almeida Falcão.