03 de março, 2006 - 14h33 GMT (11h33 Brasília)
Um kwuaitiano que está preso na base americana de Guantánamo, em Cuba, deu uma entrevista exclusiva à BBC, na qual contou ter sido vítima de atos de tortura.
No relato, transmitido nesta sexta-feira, Fawzi al-Odah, disse que foi forçado a se alimentar durante uma greve de fome que fez em dezembro, junto com outros 83 detentos.
Segundo Al-Odah, todos os prisioneiros eram amarrados a uma cadeira e alimentados à força por um tubo grosso introduzido até a garganta, três vezes por dia.
A prática é considerada uma forma de tortura pela Comissão de Direitos Humanos da ONU, mas o Departamento de Estado americano rejeita essa definição e negou que o governo esteja realizando tais atos em Guantánamo.
'Isolado'
A BBC apresentou perguntas a Fawzi al-Odah através de seu advogado, Tom Wilner, que teve acesso ao presídio, mas não foi possível contestar as respostas dadas.
"Primeiro eles tiraram meus pertences", disse o prisioneiro em relação a como as autoridades reagiram à sua greve de fome. "Depois me deixaram isolado durante dez dias."
"Eles entravam e liam uma ordem dizendo que se eu me recusasse a comer, eu seria colocado na cadeira (para alimentação forçada)."
Al-Odah contou que, três vezes por dia, os detentos eram obrigados a tomar laxantes e, em seguida, eram amarrados "na cadeira", onde eram forçados a se alimentar através de um tubo.
"Um homem disse que foi torturado na Arábia Saudita e que isso era pior do que qualquer coisa que aconteceu lá", afirmou ele.
Procurada pela BBC, a representante americana Colleen Graffey disse que todos os detidos podem ter revisões regulares de sua situação e que lhes é oferecida a oportunidade de renunciar à violência.
Nova lei
As declarações de Al-Odah são feitas num momento em que um juiz dos Estados Unidos se prepara para analisar um pedido para proibir esta prática.
O caso foi levado à Justiça em nome de Mohammed Bawazir, do Iêmen, que também vem sendo mantido na base desde 2002.
Este é o primeiro teste de uma nova legislação que proíbe explicitamente a tortura de suspeitos de "terrorismo", sancionada em dezembro pelo presidente americano George W. Bush.
O correspondente da BBC em Washington, Justin Webb, disse que a ação judicial contra a alimentação forçada pode ser um tiro no escuro.
Segundo ele, pelos termos da nova legislação, não está sequer claro se os tribunais têm o direito de analisar este caso.
Os advogados de Bawazir disse que ele também forçado a se alimentar.
Ele encerrou sua greve de fome para impedir o que considera uma tortura.
Os advogados argumentam que as novas normas antitortura que Bush sancionou em dezembro, depois de oposição inicial, tornam esta prática ilegal.