http://www.bbcbrasil.com

02 de março, 2006 - 13h16 GMT (10h16 Brasília)

Assimina Vlahou
de Roma

Eventos comemoram 500 anos dos Museus do Vaticano

Os museus do Vaticano comemoram neste ano 500 anos de fundação e festejam com exposições e eventos.

Cerca de 4 milhões de pessoas visitam por ano os Museus Vaticanos, cujo acervo é considerado um dos mais prestigiosos do mundo.

No total são 13 museus, distribuídos num complexo e articulado conjunto de galerias e salas, além da Capela Sistina, dos apartamentos do papa Borgia e das salas afrescadas por Rafael.

Veja imagens da exposição

Nestes espaços, em 500 anos, os pontífices romanos criaram e conservaram uma coleção sem igual, que percorre a história da cultura, da arte e da arquitetura ocidentais.

Muitas obras foram encomendadas pelos papas a artistas e arquitetos, ao longo dos séculos. Outras foram compradas ou conquistadas.

Além das famosas pinturas dos renascentistas, os museus conservam peças do antigo Egito e do período greco-romano, tapeçarias, mapas e até uma coleção com milhares de objetos usados por índios latino-americanos em ritos religiosos, que foram trazidos pelos primeiros evangelizadores.

Índios brasileiros

Só as peças provenientes de tribos indígenas brasileiras, conservadas no museu missionário etnológico, chegam a 4 mil. Em fase de reorganização, as obras ainda não podem ser visitadas.

A paixão pela arte e o colecionismo dos pontífices criaram o conceito de museu, conforme explica o diretor dos acervos vaticanos, Francesco Buranelli, em entrevista à BBC Brasil.

“Com a doação de alguns bronzes ao povo romano e a sucessiva criação do pátio das estátuas, no Vaticano, teve início o colecionismo, público e privado, que deu origem aos museus.”

Tudo começou com o Laocconte, antiga escultura grega, descoberta em 14 janeiro de 1506, na área onde surgia a casa de Nero, o imperador que incendiou Roma.

A estátua representa um personagem da mitologia, enquanto tenta salvar os dois filhos ameaçados por duas serpentes.

Um dos primeiros a ver o Laocoonte foi Michelangelo, enviado ao local pelo papa Julio 2° para fazer uma avaliação.

A estátua foi levada ao pátio do Belvedere, onde se encontra ainda hoje. A expressividade e os detalhes da escultura influenciaram pintores e escultores e os efeitos podem ser vistos nas obras expostas nos museus do Vaticano. Quem passava por Roma ia vê-la para buscar inspiração.

Os 500 anos dos museus serão comemorados com uma série de eventos que começam no dia 16 de março e duram até novembro.

Na programação há uma mostra especial do Laocoonte, a inauguração de uma nova área arqueológica próxima ao Vaticano e a apresentação do afresco restaurado de Pinturicchio, na sala dos Mistérios do apartamento do papa Borgia.

Visitantes

“A organização é muito eficiente, tudo é muito bonito. As relíquias, a preciosidade das peças e a Sistina”, comentou um casal de brasileiros, do Paraná, depois de duas horas e meia de visita e uma espera de 40 minutos para entrar.

As enormes filas que se formam quase diariamente são um problema. Para resolvê-lo está sendo projetada uma passagem subterrânea.

Os turistas não reclamam porque o sistema é ágil. Apesar dos controles de segurança, entram de 35 a 39 pessoas por minuto. A maioria sai encantada com a Capela Sistina e com os afrescos de Michelangelo.

“É imperdoável vir a Roma e não vê-la”, comentou um turista chileno.

Os afrescos da Sistina exercem uma grande atração, mas não são museu, como esclarece o diretor, Francesco Buranelli. Faz parte do palácio apostólico e é a principal capela do papa, ainda usada, como aconteceu no conclave que elegeu Bento 16, em abril do ano passado.

“Os papas chamaram os máximos artistas do Renascimento e Michelangelo para afrescá-la. É o tesouro por excelência da arte italana e não podia ficar limitada a poucos eleitos. Os papas, com altruísmo, decidiram inseri-la no percurso dos museus e colocar à disposição de todos”, disse Buranelli, que coloca o valor artístico de todo o acervo no mesmo nível de importância.

O que poucas pessoas sabem é que na história dos museus vaticanos há um brasileiro. Deoclecio Redig de Campos, considerado como um dos maiores estudiosos de Rafael e Michelangelo, foi diretor entre 1971 e 1978, além de responsável pela pinacoteca.

Sob sua direção foram realizadas algumas importantes restaurações em afrescos destes dois artistas e na Pietá – estátua esculpida por Michelangelo que está na Basílica de São Pedro. Nos anos 70, ela havia sido atacada a marteladas por um vândalo.

"Não é possível calcular o que ele deu aos museus vaticanos. Ele dedicou 40 anos, praticamente toda a sua vida”, disse sua filha, Daniela, que vive em Roma.

Segundo Buranelli, Redig de Campos foi um grande diretor e seu principal legado foi sobretudo ligado à restauração das obras de arte.