24 de fevereiro, 2006 - 16h54 GMT (13h54 Brasília)
Marcia Carmo
enviada especial a Fray Bentos, no Uruguai
O prefeito da cidade argentina de Gualeguaychú, Daniel Irigoyen, disse que o Uruguai “deve parar as obras” das duas fábricas de pasta de celulose (matéria prima para fazer papel) na cidade uruguaia de Fray Bentos.
Só assim, afirmou, poderá ser suspenso o bloqueio do trânsito da principal estrada ao país, que completa vinte dias nesta sexta-feira, e reaberto o diálogo entre as duas nações. “O Uruguai iniciou estas construções sem pedir autorização.
Está errado porque nós compartilhamos o mesmo rio (Uruguai)”, afirmou. Em Fray Bentos, a cerca de quarenta quilômetros daquela cidade argentina, o “intendente” (equivalente a governador) do Departamento uruguaio de Río Negro, Omar Lafluf Hebeich, discordou. “Não há motivos para o Uruguai paralisar obra nenhuma”.
Ele ressaltou que foram adotadas “todas as precauções necessárias” para reduzir ao máximo o impacto da produção no meio ambiente. “O lançamento dos produtos (dióxido de cloro) no rio ficará abaixo do que é exigido pela União Européia”, disse.
Lafluf Hebeich contou que a decisão de seu país de manter as construções das fábricas Ence (espanhola) e Botnia (finlandesa) está baseada em estudos do Banco Mundial, da Direção Nacional de Meio Ambiente e de professores argentinos.
Opiniões
Ouvidos pela BBCBrasil, Irigoyen e Lafluf Hebeich refletem as opiniões dos governos dos presidentes Nestor Kirchner, da Argentina, e Tabaré Vázquez, do Uruguai.
Nas duas administrações federais, não há sinalização de que as diferenças serão resolvidas através do diálogo, mas de tribunais e organismos internacionais.
“Temos um acordo conjunto, dos anos setenta, sobre a defesa deste mesmo rio. E esse acordo deve ser respeitado”, declarou um ministro do governo Kirchner.
No Uruguai, o ex-presidente Júlio María Sanguinetti e o ministro do Meio Ambiente, Mariano Arana, afirmaram à imprensa dos dois países que a Argentina “sempre esteve informada” sobre as construções.
“Oferecemos que viessem acompanhar as obras, mas não tivemos resposta”, acusou o governador uruguaio.
"Estamos tentando conversar há três anos, mas eles não deram respostas convincentes. Por isso, os moradores decidiram bloquear o trânsito que liga Gualeguaychú a Fray Bentos", destacou Irigoyen.
A Botnia e a Ence começaram a ser erguidas, às margens do rio Uruguai, há cerca de três anos e a expectativa, segundo o Lafluf Hebeich, é de que a primeira fique pronta no final de 2007 e a segunda em 2008.
A Ence vai fabricar quinhentas mil toneladas de pasta de celulose por ano e a Botnia pelo menos o dobro. Para a autoridade uruguaia, elas representam uma salvação econômica para a capital de Río Negro e para o país, já que marcarão o maior investimento já feito no Uruguai, de US$ 1,8 bilhão (cerca de 11% do Produto Interno Bruto).
Para Daniel Irigoyen, elas são “uma ameaça” ao turismo e à agropecuária, principais alavancas de Gualeguaychú e de Fray Bentos. Como disse o analista do jornal Clarín Eduardo Van der Kooy, Kirchner e Tabaré estão esgotando todas as alternativas possíveis, mas falta a mais importante, a política e o diálogo.