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22 de fevereiro, 2006 - 20h37 GMT (17h37 Brasília)

Aristide diz que seu possível retorno ao Haiti é 'natural'

O ex-presidente do Haiti Jean-Bertrand Aristide, exilado na África do Sul desde 2004, quando foi derrubado, já planeja sua volta ao país, que considera “natural, como deve ser”.

O destino de Aristide é considerado um dos principais desafios do presidente-eleito René Préval, seu ex-aliado. A figura de Aristide provoca divisões na opinião pública haitiana e é vista com reservas pelos Estados Unidos, acusados por ele de terem provocado sua queda.

Em entrevista à BBC, Aristide disse que “o povo haitiano vem lutando pacificamente” pelo seu retorno há dois anos e votou pelo seu retorno ao eleger Préval. Ele disse ainda não ter uma data para sua volta, mas que ela deverá ser definida “em consultas com as pessoas interessadas”.

Nesta quarta-feira, Préval afirmou que a Constituição haitiana não impede o retorno de Aristide ao país. No início da semana, o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, também havia dado declarações semelhantes.

'Cidadão comum'

Na entrevista à BBC, Aristide disse que, apesar de muitos de seus simpatizantes no Haiti ainda o considerarem presidente de direito, ele voltará como “cidadão comum” para ajudar seu país.

Ele disse que o amor dos haitianos por ele os levou a votar pelo seu retorno ao elegerem Préval e que esse mesmo amor “os ajudará a entender e ver que, ao trabalhar junto, respeitando um ao outro, apoiar o governo eleito é uma boa maneira de servir ao país e de proteger o futuro do povo haitiano”.

Aristide diz que o exemplo de Nelson Mandela na África do Sul pode ser usado como contra-argumento aos que dizem que seu retorno reacenderá as paixões e poderá causar mais violência no Haiti.

“Muitas pessoas achavam a mesma coisa de Mandela quando ele estava na prisão. E viram o contrário”, disse. “Os cidadãos da África do Sul, brancos e negros, negros e brancos, têm o papel que eu quero no meu país.”

“O respeito mútuo é indispensável entre esses dois grupos. Por isso eu disse que minha volta vai continuar a alimentar o espírito da reconciliação, do diálogo, como sempre defendemos”, disse Aristide.

União

Para o ex-presidente, sua presença no país não ameaça a estabilidade do futuro governo Préval. “Em nossa bandeira está escrito: união para a força. A união nos faz mais fortes”, disse.

Aristide disse ainda que os Estados Unidos, que já deram sinais de que não querem sua volta ao Haiti, “devem mostrar respeito aos direitos humanos” se o país “realmente defende a democracia, como dizem”. “Eu tenho o direito de voltar”, argumenta.

“Minha Constituição garante a qualquer cidadão voltar quando pode ou ficar no país se quiser”, afirma Aristide. “Então, é uma questão de respeito mútuo. O Haiti precisa do respeito dos Estados Unidos e os Estados Unidos precisam respeitar o Haiti.”

Questionado sobre o papel político que pretendia exercer no futuro e se via-se como presidente outra vez daqui a cinco anos, Aristide encerrou dizendo que pretendia ser “um cidadão normal, gostando de servir ao povo por meio da educação”.