14 de fevereiro, 2006 - 11h41 GMT (09h41 Brasília)
A minha primeira reportagem sobre neve em Nova York foi para para o Jornal Nacional em 7 de fevereiro de 1978. Foi uma nevada modesta – 48 centímetros – comparada com os quase 70 centímetros que caíram no domingo passado, mas fez um sucesso fora do comum.
Reportagens muito mais difíceis sobre ações de guerrilheiros e repressão na América Central, drogas e crime em Nova York, perto da nevada, passavam em branco.
Naquela época, nossa paixão pela neve e pelo frio eram maiores do que hoje, e a televisão era o veículo certo.
Uma transmissão via satélite custava quase US$ 5 mil e só era usada em casos excepcionais.
Neve, do tamanho que fosse, e frio intenso, entravam na categoria dos extremos, e tome satélite com repórter de luvas, casaco, chapéu de pele e vapor saindo da boca.
Pena
Durante anos, quando ia ao Brasil, as pessoas queriam saber mais sobre o frio. Algumas diziam que tinham pena de mim, e se a minha mãe não ficava preocupada.
Uma desconhecida me ofereceu o cachecol do marido.
Meu pavor sempre foi o calor e o do Rio é muito pior do que o de Nova York. Nunca cobri uma nevada tão destrutiva como as tempestades do Rio que provocavam deslizamentos e derrubavam prédios.
A nevada de ontem foi a maior da história da cidade, afetou dez Estados, e em alguns deles fechou estradas e cortou a energia, mas em Nova York, foi nevada de cartão postal, domingueira, mansa e fofa.
Dois mil vôos foram cancelados, centenas de pessoas ficaram presas durante algumas horas em trens e o comércio perdeu dinheiro, mas no fim do dia, as ruas principais de Nova York estavam abertas e, pelo menos até agora, nenhuma morte foi atribuída à nevada e ao frio.
Do ponto de vista de reportagem sobre a natureza e as suas ações, a mais difícil foi sobre o primeiro dia de primavera em Nova York, naquele mesmo ano de 78.
Depois de um inverno tão tenebroso, o editor do Fantástico pediu um satélite com uma matéria de três minutos mostrando a alegria e as cores de Nova York com a chegada da primavera.
Era um domingo. Não havia um verde, nenhuma cor, nenhuma festa na cidade cinza e chuvosa. Que saudade da neve!