Andrea Wellbaum
enviada especial a Cotonou, no Benin
Na saída da estrada para acessar a aldeia de Uidá, um outdoor de publicidade do Café Pelé – com a imagem de um jovem Pelé pintada à mão – sinaliza a relação do local com o Brasil.
Ao abordar as pessoas nas ruas, o idioma falado por elas, o francês, não deixa transparecer qualquer ligação, mas, assim que elas anunciam seus sobrenomes, percebe-se que brasileiros deixaram suas marcas em Uidá: são Souzas, Silvas, Santos e Carvalhos.
Todos esperavam ansiosos a chegada do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, dois séculos depois de os primeiros brasileiros desembarcarem em Uidá, quando a aldeia era um importante entreposto de escravos.
Foi no início do século 19 que o brasileiro Francisco Félix de Souza deixou a Bahia e seguiu para o Benin, onde acabou se transformando num dos principais mercadores de escravos para as Américas. Depois dele, vieram outros brasileiros, inclusive ex-escravos, que começaram a formar a comunidade dos agudás.
Agudás
Os agudás têm muito orgulho de seus sobrenomes brasileiros, como o vendedor de artesanato Stefano de Souza. “Somos todos irmãos e eu amo o Brasil. Sempre que a seleção brasileira joga, torço para ela”, afirmou.
Souza disse esperar que a visita de Lula e o encontro com o presidente do Benin, Mathieu Kerekou, ajude seu país.
Quando Lula chegou, as dezenas de soldados da aldeia à beira da praia, que aguardaram o presidente por pelo menos 90 minutos debaixo de um forte sol, vestidos com grossos uniformes de mangas e calças compridas, começaram a tocar o hino nacional brasileiro.
Imediatamente, dois grupos mais distantes, de pessoas pintadas e com roupas coloridas, começaram a protagonizar rituais de candomblé – chamado de vodu no Benin – do lado do Portal do Não-Retorno, um monumento construído na época em que o local era utilizado para o tráfico de escravos.
Depois de ser abençoado pelo que os adeptos do candomblé acreditam ser espíritos de pessoas mortas, o presidente seguiu para a casa de Chachá Oitavo, Feliciano Julião de Souza, que é vice-rei de Daomé e vive numa imensa casa de três andares em Uidá. O primeiro vice-rei era justamente o ex-mercador de escravos Francisco Félix de Souza.
A visita terminou com um discurso do presidente brasileiro para Souzas, Silvas e outros convidados do vice-rei. Mais uma vez, Lula fez questão de destacar a importância que seu governo vem dando à África desde o início de seu mandato.
“A nossa cor, a nossa alegria, a nossa dança, a nossa música, têm tudo a ver com o que vocês representam no mundo. O Brasil deve muito ao povo africano. Homens e mulheres nesse continente eram vendidos como escravos na América e lá, com sofrimento e trabalho, ajudaram a construir meu país.”
Embaixada no Benin
O presidente brasileiro também afirmou que “não vale a pena chorar sobre o que ocorreu no passado” e que é necessário construir o futuro.
Segundo ele, para demonstrar que a passagem pelo Benin não é apenas “uma simples passagem”, o Brasil decidiu abrir sua embaixada no país. Os aplausos da platéia foram efusivos.
“Agora, o Brasil vai estar presente no cotidiano do Benin. O Brasil tem muito a ajudar o povo africano na questão da saúde, da agricultura e da educação. Podemos levar os jovens para estudar no Brasil e mandar pesquisadores para o Benin. Mas, sobretudo, queremos ajudar no desenvolvimento do continente africano.”
Os aplausos mais empolgados vieram após a última frase do discurso: “Nunca mais o Brasil voltará as costas para o povo africano”.
Na saída do presidente, várias mulheres sorridentes e felizes com as mesmas vestimentas coloridas, saudaram o presidente entoando uma frase - repetida em voz baixa já antes de Lula passar por elas - para não fazer feio na hora de falar português: “Obrigado, presidente Lula. Obrigado, obrigado!”.