26 de janeiro, 2006 - 16h15 GMT (13h15 Brasília)
O grupo militante Hamas, a principal organização islâmica militante palestina, parece ter traduzido a popularidade de sua luta em votos, vencendo as primeiras eleições parlamentares palestinas desde 1996, realizadas em janeiro de 2006.
Considerada uma organização terrorista por Israel, Estados Unidos e União Européia, o grupo é visto por seus correligionários como uma força legítima de luta defendendo os palestinos da brutal ocupação militar israelense.
O grupo, criado em 1987 no início da primeira Intifada (revolta palestina), tem como objetivo, a curto prazo, expulsar as forças israelenses dos territórios ocupados através de ataques contra os soldados e os colonos judeus e - de maneira mais polêmica - contra civis israelenses.
O Hamas insiste que a retirada israelense da Faixa de Gaza em 2005 foi uma vitória de sua política.
Longo prazo
O Hamas também tem o objetivo de, a longo prazo, estabelecer um Estado islâmico em toda a Palestina histórica, cuja maior parte permanece dentro das fronteiras de Israel desde sua criação, em 1948.
Desde a morte do líder palestino Yasser Arafat, o Hamas vem participando de eleições locais e conquistou várias cadeiras em áreas como Gaza, Qalqilya e Nablus.
A organização, formada por um braço político e outro militar, tem um número desconhecido de integrantes, mas conta com dezenas de milhares de correligionários e simpatizantes.
O grupo se divide em duas principais esferas de operação: programas sociais, que incluem a construção de escolas, hospitais e instituições religiosas; e operações militantes lideradas pelas Brigadas Izzedine al-Qassam, um grupo clandestino.
O Hamas também tem um setor no exílio, no Catar.
Oposição
O grupo ganhou fama depois da primeira Intifada como o principal opositor palestino aos Acordos de Oslo - o processo de paz liderado pelo governo americano que previa a remoção gradual e parcial das tropas israelenses nos territórios ocupados, em troca de compromissos das autoridades palestinas de proteger a segurança de Israel.
Apesar das várias operações israelenses contra o Hamas, e também das tentativas de repressão da própria Autoridade Nacional Palestina, o Hamas descobriu que tem um efetivo poder de veto sobre o processo de paz, com os atentados suicidas.
Em fevereiro e março de 1996, o Hamas cometeu uma série de atentados suicidas, causando a morte de quase 60 israelenses, em retaliação contra o assassinato um de seus membros em dezembro de 1995.
Apoio crescente
Com o fim dos acordos de Oslo, e principalmente depois da fracassada tentativa de retomada do processo de paz no encontro de Camp David, em meados do ano 2000, e a segunda Intifada, iniciada meses depois, o Hamas ganhou força e influência enquanto Israel destruía sistematicamente a infra-estrutura da secular Autoridade Palestina.
Nas cidades e campos de refugiados sitiados pelas tropas israelenses, o Hamas organizou clínicas e escolas para os palestinos, que se sentem totalmente decepcionados com a corrupta e ineficiente Autoridade Nacional Palestina.
O grupo também executou sumariamente colaboradores palestinos e adotou punições para "comportamento imoral".
Muitos palestinos concordam que as operações suicidas são a melhor maneira de se vingar de Israel e, apesar das inúmeras tentativas de unir as várias facções palestinas, o Hamas sempre se esquivou de assinar um cessar-fogo permanente enquanto Israel ocupar os territórios palestinos.
"A morte de civis tem que ser punida com a morte de civis", disse Mahmoud al-Zahhar, alto integrante do Hamas.
Asassinatos
Apesar de ser um dos maiores algozes de Israel, com atentados normalmente melhor planejados e executados do que os de outros grupos militantes, o Hamas já perdeu muitos de seus líderes em assassinatos cometidos por Israel.
O Hamas decidiu então manter em sigilo o nome do seu sucessor, mas fontes palestinas revelaram que os novos líderes eram Mahmoud Zahhar, Ismail Hanya e Sayyid al-Sayyam.
Por outro lado, o Hamas tem se mostrado disposto a, de tempos em tempos, suspender seus ataques em favor da diplomacia palestina, se julgar adequado.
"O principal objetivo da Intifada é a liberação da Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém, e nada mais. Não temos força para liberar toda a nossa terra" disse Rantissi à BBC em 2002.
"Em nossa religião, é proibido abrir mão de parte de nossa terra, portanto não podemos reconhecer Israel de forma alguma. Mas podemos aceitar uma trégua com eles e viver lado a lado, deixando que essas questões sejam decididas pelas próximas gerações."
Enfrentando o eleitorado
A decisão de concorrer nas eleições palestinas foi importante para o Hamas.
Mas, grupos políticos como o Fatah afirmam que, na prática, a mudança significa que o Hamas aceita os acordos de Oslo e o reconhecimento do direito de Israel de existir - descrição rejeitada pelo Hamas.
Mas o braço armado do grupo permanece sendo o símbolo da "infraestrutura terrorista" que a Autoridade Palestina deve desbaratar segundo o acordo internacional conhecido como Mapa para a Paz.