25 de janeiro, 2006 - 19h37 GMT (17h37 Brasília)
Assimina Vlahou
de Roma
Na opinião de alguns vaticanistas, ao contrário do que muitos esperavam, a primeira encíclica de Bento 16 não mostra claramente quais serão os rumos de seu pontificado.
"A encíclica é sobretudo uma reflexão teológica do papa. Deste ponto de vista ainda não conseguimos entender como será na sua qualidade de líder de 1 bilhão de católicos", disse o vaticanista Marco Politi à BBC Brasil.
O analista, contudo, vê como algo positivo o fato de o papa ter enfatizado que o centro do cristianismo é o amor e não "um pacote de regras e dogmas".
Em sua primeira encíclica, o papa Bento 16 fala de amor e caridade mas também de política, marxismo e doutrina social da igreja.
No texto, que foi divulgado nesta quarta-feira pelo Vaticano, o pontífice afirma que a igreja não deve "tomar em suas próprias mãos a batalha política por uma sociedade mais justa" e que a atividade de caridade da igreja deve ser "independente de partidos e ideologias".
Duas partes
O documento, que foi assinado no dia 25 de dezembro, tem 78 páginas e é dividido em duas partes. Na primeira, o papa escreve sobre o amor.
"Deus é amor e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele", escreve ele na introdução. Logo depois, explica por que quis falar de amor em sua primeira encíclica.
"Num mundo em que o nome de Deus às vezes é associado à vingança, ódio ou violência, esta mensagem é de grande atualidade e significado", diz o papa.
Segundo o papa Ratzinger, a palavra amor tornou-se uma das mais "usadas e abusadas" e o modo de exaltar o corpo hoje é enganador. "O eros degradado a puro sexo torna-se mercadoria", afirma o texto.
O pontífice explica a diferença entre amor carnal (eros) e amor espiritual. Ele escreve que "o eros pode nos elevar em êxtase para o Divino, para alem de nós mesmos, mas justamente por isso requer um caminho de renúncia e de purificação".
O homem, de acordo com o papa, é feito de alma e corpo e torna-se realmente ele mesmo quando "corpo e alma se encontram em íntima unidade".
Moral sexual
O vaticanista John Allen vê, nesta parte da encíclica, a tentativa de apresentar de forma mais positiva a mensagem da igreja sobre temas ligados à moral sexual.
"O papa quis dizer que a mensagem da igreja em temas como preservativos, aborto, homossexualidade, não é simplesmente um não à experiência humana mas um sim a algo maior. A igreja quer guiar a humanidade para um amor mais alto", avalia Allen.
Ele também não considera a encíclica como um programa de pontificado. O texto é muito articulado e traz diversas citações de teólogos, santos, filósofos e textos bíblicos. A compreensão não é fácil.
"Para um cristão comum, é difícil ler esta encíclica com interesse porque fala de vários argumentos. É muito complexa e não muito feliz do ponto de vista da comunicação", considera Luigi Accatoli, vaticanista do jornal Corriere della Sera.
Já de acordo com Marco Politi, do jornal La Repubblica, o texto está escrito em modo muito claro e comprova uma mudança no estilo de Ratzinger.
"Desde que foi eleito papa, está deixando a imagem de cardeal de ferro e guardião inflexível da doutrina para mostrar um aspecto muito humano do cristianismo”, analisa.
Caridade
A segunda parte da encíclica fala da caridade como forma de amor. O papa afirma que "amar o próximo é dever da igreja" e explica que as organizações de caridade devem permanecer independentes de ideologias e partidos.
"É um discurso interno da igreja. O papa deixou claro que estas organizações devem evitar as ideologias e recordar que a justiça, promovida pela igreja, não elimina a necessidade de um trabalho mais direto de ajuda aos necessitados", comenta John Allen.
De acordo com o texto escrito por Bento 16, a prática da caridade é um dos âmbitos essenciais da igreja. Esta prática, diz a encíclica, foi criticada, sobretudo pelo pensamento marxista, segundo o qual os pobres não precisam de caridade, mas de justiça social.
"O marxismo indicava na revolução mundial e na sua preparação, a panacéia para os problemas sociais. Este sonho desvaneceu-se", afirma o documento.
O texto diz que diante da atual situação, com a economia globalizada, a doutrina social católica tornou-se uma "indicação fundamental que propõe orientações válidas".
Mas deixa claro que há uma separação entre Estado e igreja.
"A igreja não pode nem deve tomar nas próprias mãos a batalha política para realizar uma sociedade mais justa, mas também não deve ficar à margem na luta pela justiça", escreve Bento 16.
Segundo o pontífice, a justa ordem da sociedade e do Estado é um dever da política. "Um Estado que não se rege segundo a justiça, se reduziria a um grande bando de ladrões", diz o texto do papa, que cita Santo Agostinho.
Na opinião de Marco Politi, quando Bento 16 fala de marxismo e doutrina social da igreja, há uma pequena polêmica. "Reflete os problemas que teve nos anos 80, sobretudo com a teologia da libertação."