24 de janeiro, 2006 - 15h50 GMT (13h50 Brasília)
Marcia Carmo
Enviada especial a La Paz
O presidente boliviano, Evo Morales, substituiu nesta terça-feira toda a cúpula das Forças Armadas e da Polícia Militar, abrindo a primeira crise de seu governo dois dias depois da posse.
O comandante das Forças Armadas, os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica, além do general que liderava a Polícia Militar foram trocados.
Em breve discurso no Palácio Quemado, em La Paz, Morales disse que vai mandar investigar os militares que estão sendo substituídos pelos novos generais, almirantes e coronéis.
Durante o discurso, a esposa do general Marco Antonio Vásquez, um dos acusados por Evo Morales de ter participado do envio dos mísseis aos Estados Unidos, ação que o presidente prometeu investigar, entrou gritando no mesmo salão e foi retirada do lugar.
Ao ver a cena, o general Vasquez tentou entrar no salão e foi contido pelas pessoas que acompanhavam a nomeação.
Hierarquia
As primeiras informações são de que Morales preferiu substituir as cúpulas das Forças Armadas e dos militares, ignorando a hierarquia e saltando duas gerações, o que, segundo alguns, poderia significar o rompimento da "institucionalidade militar".
"Romperam as regras. As leis não estão sendo respeitadas e se está rompendo a hierarquia das Forças Armadas", disse o general Vásquez.
"Eu sou acusado de ter obedecido ordens. Mas ninguém quis ouvir o que eu tenho para dizer. Minha vida é o Exército e sempre foi, e agora me aposentam e eu sem direito sequer a ser ouvido", disse, quase às lágrimas, o general.
"Há um enorme mal estar nas Forças Armadas com essas nomeações que o presidente está fazendo hoje", disse o General Carlos Delfim, o ex-comandante das Forças Armadas.
Ele disse que foram 28 os militares afastados pelo novo presidente.
"O presidente não destratou pessoas, mas as Forças Armadas", disse ele.
Para Delfim, o general de brigada Wilfredo Vargas não poderia ser nomeado comandante das Forças Armadas porque tem apenas três estrelas.
Morales pediu colaboração às Forças Armadas na área social e disse que mandará investigar alguns dos militares que deixam a cúpula e são acusados de mandar 28 mísseis de fabricação chinesa para serem desmontados nos EUA.
"O nosso país não pode sofrer o desmantelamento das Forças Armadas, e por isso, os acusados de envolvimento vão ser investigados", avisou Morales.
"É importante fortalecer as Forças Armadas. Um país sem Forças Armadas não é um país soberano", disse Morales, fazendo questão de ressaltar que é ele o presidente da República e das Forças Armadas.
Morales ainda pediu que o serviço militar seja obrigatório para todos, inclusive os indígenas que, para ele, são discriminados pelas Forças Armadas.