16 de janeiro, 2006 - 18h17 GMT (16h17 Brasília)
Marcia Carmo
enviada especial a Santiago
A presidente eleita do Chile, Michelle Bachelet, deverá correr contra o
relógio para concretizar seu programa de governo a partir do dia 11 de
março.
Os quatro anos de mandato, dois a menos que o atual do presidente
Ricardo Lagos, são só um dos desafios da próxima presidente do país.
A lista de desafios de Bachelet inclui também, segundo seus assessores, um novo estilo de governar, “com diálogo intenso” com os diferentes setores e a reforma da previdência social, criticada pela situação e pela oposição e concentrada pelas administradoras privadas de Fundos de Pensões.
Ainda na lista, melhorar a qualidade do ensino e facilitar o acesso às universidades para os mais pobres, já que toda a rede superior exige o pagamento de mensalidades.
Creches
A presidente eleita também prometeu ampliar a rede de creches para crianças de zero a cinco anos, pois entende que essa é uma forma de permitir que as chilenas possam trabalhar.
Hoje, as mulheres têm a menor participação no mercado de trabalho entre os países da América Latina, segundo Andrés Velazco, professor de economia da Universidade de Havard e o economista da nova base governista.
Os desafios de Bachelet, na avaliação dos analistas políticos Manuel Garretón e Guillemo Holzman, da Universidade do Chile, e Cláudio Fuentes, da Flacso, incluem uma agenda social interna e outra externa, de maior aproximação com os vizinhos.
“Mas talvez seu maior desafio será livrar-se do fantasma de Ricardo Lagos. Ele sai com a popularidade alta e aposta-se que poderia ter grande influência em seu governo”, disse Holzman.
Debates
“Bachelet terá um novo estilo de governar e de aproximação com os países vizinhos”, entende Garretón.
Para ele, a presidente eleita também poderá discutir, através de diferentes debates, temas como o aborto.
Garretón lembrou que durante a campanha lhe perguntaram o que faria se sua filha tivesse sido estuprada e ficasse grávida.
Ao que ela respondeu, que perguntaria a filha o que ela achava. A mesma pergunta tinha sido feita, durante a campanha eleitoral de Lagos. Ele respondeu, recorda Garretón, que a filha teria o bebê.
O analista citou o exemplo para dizer que Bachelet escutará mais as opiniões da sociedade para depois adotar medidas que até poderiam ser polêmicas hoje, mas atenderiam “à realidade do Chile”.
Constituição
Manter a Concertación – a frente governista de centro-esquerda – unida em torno às suas propostas será outro desafio da presidente eleita, na opinião de interlocutores do atual governo chileno.
“O novo governo terá o desafio de incluir aqueles que sofreram com o desemprego e outros problemas sociais depois da última crise”, destacou o senador Alejandro Foxley, cotado para ser ministro das Relações Exteriores na nova administração.
Com a maioria de parlamentares da situação na Câmara dos Deputados e no Senado, Bachelet poderá ainda, na opinião de Garretón, concluir as reformas necessárias, como a política, para que o Chile tenha uma “constituição dos tempos democráticos” e “enterre de vez” a carta que foi escrita da primeira a última página pelo general e ex-ditador Augusto Pinochet.
Para o deputado e senador Juan Pablo Letelier, do Partido Socialista, filho do chanceler Letelier, morto em Washington, num atentado assumido pela polícia pinochetista, Bachelet tem ainda como meta aumentar a integração física com os países vizinhos.
“Mais infra-estrutura conjunta, como na área de energia e estradas, além de mais intercâmbio comercial com os vizinhos”, disse ele, referindo-se ao Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Venezuela.
Com os vizinhos, o assunto considerado "mais delicado", por assessores do novo governo, é o pedido da Bolívia de ter acesso ao mar, através do Chile.
Uma discussão antiga, que divide os chilenos e é considerada muito importante, até mesmo por José Miguel Insulza, ex-chanceler do governo Lagos e atual secretário geral da Organização dos Estados Americanos, OEA.
"É impossível excluir o tema marítimo da Bolívia da agenda de discussões entre o país e o Chile", disse ele, segundo a imprensa chilena.