13 de janeiro, 2006 - 14h36 GMT (12h36 Brasília)
Paul Reynolds
de Londres
Sanções contra o Irã poderiam iniciar uma nova era de confrontos, sem garantias de alcançar o objetivo de acabar com as ambições nucleares do governo iraniano.
Quaisquer sanções teriam que recair sobre a economia do país e os efeitos são questionáveis. Além disso, até que todos os estágios sejam vencidos, há o fator tempo.
Os países ocidentais têm que concordar primeiro que a decisão do Irã de remover os selos da ONU de suas instalações nucleares e reiniciar as pesquisas de enriquecimento de urânio significa ultrapassar o sinal vermelho e acaba, pelo menos por agora, com a possibilidade de uma solução diplomática.
Os três países da União Européia que vinham negociando com o Irã – Grã-Bretanha, França e Alemanha – já chegaram a essa conclusão.
Recusa
A partir daí, os aliados dos Estados Unidos e da União Européia precisam persuadir os países membros da agência de supervisão nuclear da ONU – A Agência Internacional de Energia Nuclear (AIEA) – a concordar em remeter o caso do Irã para apreciação do Conselho de Segurança.
Se estiver suficientemente unido, o Conselho pode então enviar uma advertência ao Irã, convocando o país a suspender todas as atividades nucleares novamente e voltar à mesa de negociações.
Somente depois de uma possível recusa é que as sanções poderiam ser votadas e impostas.
Mas que tipo de sanções? Elas poderiam ser orientadas para o comércio, voltadas para os principais produtos de exportação do país: petróleo e gás.
O Irã também é candidato a membro da Organização Mundial do Comércio (OMC) e a candidatura, ainda em uma fase inicial, seria bloqueada.
Os Estados Unidos já têm um embargo comercial contra o Irã e querem impedir que as grandes empresas de petróleo americanas ajudem o país a explorar suas reservas.
De acordo com a OMC, 86% das exportações iranianas vêm do petróleo, gás e minérios.
Mas os americanos não podem esperar que outros países tomem atitudes tão drásticas e pode ser difícil convencer alguns deles a tomar qualquer tipo de atitude.
A China, por exemplo, dificilmente votaria por um embargo de petróleo. Em novembro de 2004, chineses e iranianos fecharam um acordo de venda de petróleo e gás no valor de US$ 70 bilhões (cerca de R$ 159 bilhões).
E o governo chinês é um dos cinco com poder de veto no Conselho de Segurança.
Rússia
O Japão, maior importador do petróleo iraniano, também não gostaria de ver um embargo deste tipo.
E a Rússia, que também tem poder de veto no Conselho, está construindo uma usina nuclear para o Iraque.
A atitude da Rússia com relação ao projeto nuclear do Irã tem sido mais crítica, recentemente. Mais especificamente, desde que o Irã recusou a oferta de ter urânio enriquecido na Rússia para ser usado como combustível em suas usinas nucleares.
Mesmo assim, o governo russo pode relutar em ir até o fim na questão de imposição de sanções.
Conseqüências
Mesmo que elas sejam aprovadas, será que sanções poderiam funcionar?
No curto prazo isto seria difícil. As lideranças políticas e religiosas no Irã não parecem se importar muito, já que há uma grande demanda por petróleo no mundo e o Irã tem muito petróleo.
O governo iraniano tem os olhos voltados para um horizonte mais distante. E afirma que o Irã tem o direito de dominar o ciclo nuclear e deve resistir ao que chama de pressão ocidental.
O país está explorando com astúcia seus direitos garantidos pelo Tratado de não-Profileração Nuclear. De acordo com o tratado, o Irã poderia desenvolver e dominar o ciclo nuclear sob inspeção. E o país afirma que é isto o que quer fazer.
O contra-argumento é que os iranianos perderam este direito ao criar um programa secreto de enriquecimento de urânio e agora não podem agir como nada tivesse acontecido. O país poderia, como outros fazem, comprar urânio enriquecido de fontes regulamentadas.
Militar
E no caso das sanções não funcionarem?
O Irã deve conseguir em algum momento dominar a tecnologia de enriquecimento de urânio. Isto, como afirmam especialistas como o ex-chefe de inspeções de armas da ONU, Hans Blix, pode levar muitos anos. Mas vai acontecer mais cedo ou mais tarde.
Ação militar pode ser cogitada.
Os países do ocidente e Israel afirmam que não se pode confiar no Irã, e que possuir a tecnologia de enriquecimento de urânio para uso como combustível, também significa poder enriquecer urânio um pouco mais para produzir bombas atômicas.
Se você é capaz de fazer um, é capaz de fazer outro. E isto daria ao Irã a possibilidade de abandonar o Tratado de não-Proliferação e tornar-se mais uma potência nuclear.
Se este momento chegar, será um outro momento de decisão para os países do Ocidente e para Israel. O presidente americano, George W. Bush, repetiu várias vezes que não vai permitir que o Irã construa uma bomba atômica. E Israel pode querer não esperar por isto.