06 de janeiro, 2006 - 21h52 GMT (19h52 Brasília)
Márcia Carmo
de Buenos Aires
O presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, está diante do dilema de confirmar ou desmentir a afirmação feita por seu ministro da Economia, Danilo Astori, de que o país começaria a "negociar logo" e "ainda esse ano", segundo a imprensa uruguaia, um acordo de livre comércio com os Estados Unidos.
A iniciativa significaria, segundo assessores do governo argentino, o rompimento do Mercosul. O bloco é uma união aduaneira formada pelo Brasil, Argentina e Paraguai, além do Uruguai. E por suas normas, acordos deste tipo só são feitos pelo grupo e não por um integrante, isoladamente.
As declarações de Astori foram feitas ao semanário Búsqueda, mas o ministro foi desmentido, nesta sexta-feira, pelo colega e ministro das Relações Exteriores, Reinaldo Gargano.
O chanceler uruguaio disse a emissoras de rádio da Argentina, La Isla e Continental, que "não há nenhuma iniciativa do governo" neste sentido.
De volta à agenda
Astori tinha afirmado que o assunto "voltou à agenda" do país e que a idéia era seguir o exemplo do Chile, negociando-se acordos bilaterais de livre comércio também com a China e a Índia.
"Se o ministro das Relações Exteriores não sabe nada disso e o presidente da República muito menos, é sinal de que existe alguma falsidade nessa notícia”, disse Gargano, conforme reprodução dos jornais online do próprio Uruguai.
As palavras de Astori geraram crise política no governo uruguaio e forte repercussão na Argentina, país que exerce a presidência temporária do Mercosul.
"Uruguai mais sério: quer livre comércio com Estados Unidos", publicou o jornal argentino Ambito Financiero, em sua manchete desta sexta-feira.
" Nova disputa diplomática com o Uruguai. Ministro anunciou que seu país negociará acordo de livre comércio com os Estados Unidos", estampou, por sua vez, o jornal Clarín, também em sua manchete de primeira página.
O assunto foi um dos principias temas do noticiário das emissoras de rádio e de TV da Argentina, nesta sexta-feira, já que o Ministério das Relações Exteriores do governo de Néstor Kirchner pediu "explicações e retificação" ao governo uruguaio sobre as afirmações de Astori.
Feriado
Como é feriado nacional no Uruguai, pelo dia de Reis, a expectativa é que o presidente Tabaré Vázquez resolva, segundo analistas, a crise política nas próximas horas.
Essa não é a primeira vez que surge a informação de que o Uruguai, que possui três milhões e meio de habitantes, pretende negociar acordo, diretamente, com o governo americano.
Na gestão do ex-presidente Jorge Batlle, especulou-se muitas vezes sobre esta possibilidade.
Batlle não era muito simpático ao Mercosul, argumentando que seu país, assim como o Paraguai, não era beneficiado por integrar o bloco, limitando-se, muitas vezes, a acompanhar as decisões dos dois sócios maiores, Brasil e Argentina.
As versões sobre a insatisfação do Uruguai – e também do Paraguai – chegaram a reaparecer no fim do ano passado.
Mas elas tinham sido esquecidas depois que os quatro países, unidos, e acompanhados da Venezuela, decidiram rejeitar as discussões sobre a criação da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), como está, durante a IV Cúpula das Américas, em Mar del Plata, em novembro passado.