04 de janeiro, 2006 - 11h23 GMT (09h23 Brasília)
Mauro Brunetti é professor na cidade de Savona, na Itália. Tem que pegar o trem todo dia para chegar ao colégio em que leciona.
Mauro Brunetti, como muita gente, por estas Europas, cansou de se irritar com o atraso do trem. Resolveu então processar a autoridade ferroviária do país, a Trenitalia.
Conhecendo a burocracia local, resolveu que uma simples queixa de nada adiantaria.
Mente treinada, mestre Brunetti foi às pesquisas jurídicas e notou a existência de um número inusitado de italianos processando outros italianos, ou instituições italianas, por – conforme estava lá nos autos – “danos existenciais”.
O ilustre Brunetti entrou na justiça com a mesma argumentação, após as burocracias de praxe.
No processo, que ora apenas se inicia, nosso querido professor se afirma prejudicado pelos atrasos no trabalho e na sua vida pessoal.
Frisou que, como professor, tem que respeitar horários e, com empecilhos nesta área, poderá vir a sofrer sérias consequências, que a jurisprudência recente qualifica de “danos existenciais”.
O caso segue naquele passinho de casos jurídicos simples, complicados e mezzo-a-mezzo na Itália.
O curioso é que os franceses, donos de maior intimidade com o existencialismo, tendo popularizado o conceito durante e logo depois da segunda guerra mundial, mediante principalmente pensamento e obras de Jean-Paul Sartre e Albert Camus, jamais entraram na justiça com aspectos comezinhos da questão que enfatiza a exclusividade e o isolamento da experiência de um indivíduo diante de um universo hostil ou indiferente.
Como não se cansou de repetir Emilinha Borba, nos versos cheios de angst de “Chiquita Bacana”: o existencialismo é um movimento filosófico que assume que as pessoas são livres e responsáveis pelo que fazem.
O professore Moretti pensa diferente. Eu também.
Italiano não tem “existencial”. Italiano tem indigestão, furúnculo, flatulências, todo um sortido prato de mazelas itálicas.
Angústia existencial é com os franceses, alemães, dinamarqueses e suecos.
O ilustre Moretti deve fazer como o resto de seus compatriotas diante de um contratempo: ter um chilique e ficar, na plataforma, gesticulando, berrando e quebrando coisas. Só.