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22 de dezembro, 2005 - 07h39 GMT (05h39 Brasília)

Lucas Mendes: Alô, Alô Prefeito

Dentro do carro, cercado de pedestres congelados, me sinto um privilegiado, mas nem tudo está a meu favor. Há 45 minutos estou parado na rampa da ponte tentando voltar para Manhattan. Um carro encostado no outro. Ninguém nem me pede carona.

O noticiário do rádio é todo sobre a greve do metrô e dos ônibus e ouço que naquela minha ponte o congestionamento é um dos piores da cidade. Com sorte, vou levar uma hora e meia para cobrir um percurso que leva três minutos.

Nesta greve estou a favor do governo, contra os grevistas. Este foi o único sindicato de funcionários públicos que optou pela greve. Todos outros deram cabeçadas, insultaram o prefeito, trabalharam sem contratos e acertaram sem greves.

Os empregados do trânsito são os marajás do funcionalismo público, com salários altos, pensões e planos de saúde generosos. A lei que proíbe greves, chamada Taylor, foi criada por causa de uma greve deles, em 66.

O então governador Nelson Rockefeller contratou o professor Taylor para rever as leis e propor uma nova capaz de eliminar ou reduzir greves de funcionários públicos. Daí a lei Taylor.

Basicamente, além de proibir as greves, estabelece que para cada dia parado o grevista perde dois de salário. Os líderes podem ir para a prisão. Vários sindicatos testaram a lei e sofreram as conseqüências.

Em 1980 os empregados do sistema de trânsito entraram em greve por 11 dias. Cada um pagou 22 dias de multa mais do que o aumento que tinha conquistado com a greve naquele ano. Mas, a longo prazo, saíram ganhando.

Ouvindo esta e outras histórias no rádio percebi que quase todos os motoristas estavam falando no celular. Resolvi ligar para o prefeito. Queria transmitir minha solidariedade e dizer que o plano dele para carros não está funcionando. Sair da cidade é fácil. Entrar é um inferno. Se o carro é o único meio de transporte não há motivo para punir os motoristas.

A telefonista foi muito gentil. Anotou meu recado, nome, telefone e me deu o número da minha mensagem para o prefeito: 20.846.096 C1/1.

Ele vai me ligar de volta? perguntei. Quem sabe, ela respondeu. Estou esperando. Não tenho aonde ir.