19 de dezembro, 2005 - 10h16 GMT (08h16 Brasília)
O acordo fechado no domingo em Hong Kong, na cúpula ministerial da Organização Mundial do Comércio, é um dos principais temas de destaque na imprensa internacional nesta segunda-feira.
Um editorial publicado pelo jornal britânico Financial Times diz que ao final do encontro as negociações comerciais da Rodada Doha foram mantidas vivas “apenas respirando” e precisarão ser ressuscitadas no começo do ano que vem.
O texto adverte que um fracasso significaria “a morte lenta do liberalismo que o mundo já conseguiu”. “Isso é algo que somente idiotas receberiam com prazer”, conclui o editorial.
Em um outro texto, o Financial Times traça um pequeno perfil dos principais negociadores em Hong Kong, no qual diz que o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, manteve intacta sua reputação de “mestre estrategista e negociador formidável, hábil em tirar vantagem de jogar as grandes potências comerciais umas contra as outras”, apesar de ter saído do encontro com um acordo aquém de seus objetivos.
O perfil diz ainda que o Brasil, “como um dos produtores mais eficientes do mundo, teria mais a ganhar com um resultado favorável da Rodada Doha – e mais a perder se as negociações fracassarem”.
"A um passo do fracasso"
O jornal The Times, de Londres, destaca o comentário do secretário do Comércio britânico, Alan Johnson, de que o acordo do domingo foi “apenas um passo aquém do fracasso”. Para Johnson, os negociadores terão de trabalhar duro para cumprir o prazo auto-imposto e finalizar os detalhes do acordo até abril do ano que vem.
Para o diário espanhol El País, o acordo foi “um pequeno passo na direção da abertura comercial”. Mas a reportagem do enviado especial do jornal a Hong Kong afirma que a reunião da OMC “terminou em empate” entre os países ricos e os pobres.
“As duas partes vieram a Hong Kong com uma estratégia de negociação muito defensiva, e o único que conseguiram foi evitar os gols”, diz a reportagem. “Foi, definitivamente, uma partida conservadora, onde o árbitro, o secretário-geral da OMC, Pascal Lamy, teve que separar algumas vezes os rivais para evitar um conflito e apitar o menos possível para não colocar obstáculos no jogo.”
O jornal espanhol, no entanto, observa que “apesar de tudo, a partida foi jogada e houve um acordo”. “É um pacto que deixa muitos detalhes pendentes, mas que supõe um passo na direção de uma maior liberalização do comércio mundial”.
Evo Morales
O diário americano The New York Times destacou nesta segunda-feira a vitória do líder cocaleiro Evo Morales nas eleições presidenciais de domingo na Bolívia. “A Bolívia elege um presidente que apóia o cultivo da coca”, diz o título do texto publicado pelo jornal.
O New York Times observa que o governo de Morales será a primeira administração indígena dos 180 anos de história da Bolívia e deve consolidar a nova onda esquerdista na América do Sul.
Porém o jornal avalia que “a vitória de Morales não será bem recebida pelo governo Bush, que não escondeu sua antipatia pelo carismático deputado e líder da federação nacional de plantadores de coca”.
“Funcionários do governo americano advertiram que sua eleição poderia significar a formação de uma aliança desestabilizadora envolvendo Morales, o cubano Fidel Castro e o presidente venezuelano, Hugo Chávez, que parece determinado a frustrar os objetivos americanos na região”, diz o texto.
"Dúvida e impotência"
Em uma análise sobre o resultado das eleições bolivianas, o diário argentino La Nación diz que “a dúvida e a impotência” atacam os nervos dos responsáveis pela América Latina no Departamento de Estado e no Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos. “Ganhou Evo Morales na Bolívia ou Hugo Chávez abriu sua primeira sucursal bolivariana na faixa andina?”, questiona o jornal.
Para o jornal, a vitória de Morales “inaugurou um novo pólo de poder na faixa andina, ligado desde o começo da campanha eleitoral à adesão sem pudores às bravatas de Chávez”.
Em um perfil do virtual futuro presidente boliviano, o espanhol El País diz que ele “desperta tanta simpatia quanto terror”. “Seus seguidores vêem nele a possibilidade de mudar o sistema político que deixou na sarjeta 70% da população”, diz o jornal.
“Seus detratores antevêem o começo de um pesadelo nas mãos de um caudilho cocaleiro ególatra e sem preparo, que tem como grande orgulho ter recebido o prêmio de direitos humanos outorgado pelo líbio Muammar Khadafi, tal como fizeram antes as figuras que ele mais admira: Fidel Castro e Hugo Chávez”, conclui o texto.