17 de dezembro, 2005 - 17h43 GMT (15h43 Brasília)
Adriana Stock
Enviada especial a Hong Kong
Os chefes de Estado dos países membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) devem interferir nas negociações da Rodada Doha para que as discussões possam avançar significativamente.
Essa é a avaliação do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que, a menos de 24 horas do encerramento da Sexta Conferência Ministerial da OMC, se dizia “frustrado” com o andamento das negociações.
“Precisamos injetar política nessa rodada. Não acho que os ministros, e eu me incluo entre eles, serão capazes de resolver. A intervenção dos líderes será necessária”, disse o chanceler brasileiro.
O negociador americano, Robert Portman, concorda que a Rodada depende, agora, “de uma disposição política” e diz que seria um impulso nas negociações ter “os chefes” presentes. Portman sugere que um novo encontro dos ministros seja marcado para 31 de março.
“É todo o tempo que precisamos e todo o tempo que temos”, observou.
Realidade
Keith Rockwell, porta-voz da OMC, disse que a “ação política é bem-vinda, mas há muitas questões técnicas”.
“Mas ambos esforços são necessários", observou.
A participação dos presidentes dos países membros facilitaria a tomada de decisões que estariam esbarrando em fatores políticos domésticos.
Um exemplo disso seria o próprio negociador europeu, Peter Mandelson, que afirma não ter autonomia para ir além daquilo que já foi oferecido pela União Européia.
A idéia de uma reunião de chefes de Estado foi do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na opinião do ministro Amorim, “os líderes vão enfrentar a realidade”.
Nas últimas semanas, o presidente Lula entrou em contato com outros governantes, como o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e o primeiro-ministro britânico, Tony Blair.
Blair escreveu uma carta ao presidente Lula apoiando a idéia da reunião. Amorim acha que o encontro poderia ser feito depois do Natal, em janeiro.
'Frustrado'
Pouco antes de ser publicado o rascunho da declaração, o ministro Amorim comentou que as negociações em Hong Kong, em especial a reunião de sexta-feira, têm sido “frustrantes”.
Aparentando cansaço – a última reunião começou no final da noite de sexta-feira e terminou às 4 horas da madrugada de sábado – o chanceler disse que há muita “frustração com a maneira pela qual a União Européia está negociando”.
“Tenho 20 anos de OMC e nunca tinha visto isso. Isso não é normal. As coisas são mais transparentes”, comentou o chanceler em referência à estratégia dos negociadores europeus.
“Tem que arranjar uma pessoa mais jovem para agüentar isso”, brincou.
Por outro lado, o negociador europeu Peter Mandelson, também vem demonstrando insatisfação com as reuniões.
Ele já vinha criticando a falta de ambição e de flexibilidade dos seus colegas na mesa de negociação.
Neste sábado, ele voltou a criticar o que chamou de "falta de ambição" no rascunho da declaração.
Entre as expectativas da União Européia para a conferência da OMC está a de sair do encontro com possibilidades de investimento na área de serviços, mas Mandelson afirmou que o rascunho "não aponta essas oportunidades".