15 de dezembro, 2005 - 08h12 GMT (06h12 Brasília)
Paulo Cabral
do Cairo
Os iraquianos vão às urnas nesta quinta-feira para eleições parlamentares sob a expectativa de uma participação maior do que na votação de janeiro deste ano, quando foi escolhida a Assembléia Nacional Provisória.
A população já foi chamada a votar duas vezes em 2005. Pouco menos de 60% dos eleitores foram às urnas nas eleições de Janeiro, e pouco mais de 60% participaram do referendo que aprovou a nova Constituição.
Mas analistas dizem que estas eleições vão ser bem diferentes da disputa do início do ano porque o sistema mudou e porque os sunitas – que boicotaram a eleição de janeiro – parecem estar mais interessados na disputa.
"Seria bom ter uma noção de qual vai ser o resultado destas eleições, mas nós simplesmente não temos. O país é muito inseguro para pesquisas de intenção de voto", disse o direitor do programa de Oriente Médio do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, de Washington, John Alterman.
"Tenho a impressão de que a coalizão dos xiitas está bem posicionada e que os curdos podem perder um pouco, porque o novo sistema de eleição proporcional limita os ganho decorrentes da forte unidade étnica deles. E acho que (o embaixador americano Zalmay) Khalilzad preparou bem o caminho para uma maior participação dos sunitas", acredita ele.
Pesquisa
Uma das poucas pesquisas sobre a eleição feitas no Iraque e divulgadas ao público foi encomenda da entidade americana de "promoção da democracia" Instituto Internacional Republicano.
Na sondagem feita com 2,7 mil iraquianos em 18 províncias do país, 93% disseram que pretendiam votar. A pesquisa não incluía perguntas sobre as preferências dos eleitores nem os dividia por origem.
Nas eleições do início do ano, o voto no Iraque ficou basicamente divido entre as três comunidades principais: o curdos-sunitas, os árabes-xiitas e os árabes-sunitas.
Os árabes-sunitas boicotaram as eleições, acabaram subrepresentados na Assembléia e são apontados pelo governo do Iraque e pelos americanos como os responsáveis pelo grosso da insurgência no país.
Existe a esperança de que na escolha da Assembléia Nacional definitiva agora aconteça uma participação maior do sunitas e que isso equilibre um pouco mais o jogo político.
A tendência é de que os sunitas ganhem mais assentos de qualquer maneira porque a eleição agora vai ser proporcional e por províncias, ou seja, nas áreas onde a comunidade é praticamente hegemônica - exatamente onde a violência pode atrapalhar mais as eleições - alguns assentos estarão garantidos mesmo que muita gente não vá votar.
Mas Alterman teme que a eleição também acabe aprofundando ainda mais a divisão sectária no Iraque.
"O resultado mais provável destas eleições é que a escolha do candidato acabe se dando através das identificações mais básicas, de etnicidade e religião, e a favor daquele que tiver poder imediato para fornecer bem-estar e segurança à comunidade", avalia.
O secretário-geral da Organização da Conferência Islâmica (que reúne 56 países muçulmanos em todo o mundo), Ekmeleddin Ihsanoglu, diz que o "sectarismo" no Iraque é uma grande preocupação da entidade.
"Nós somos contra processos que criem conflitos entre as populações que já vivem no Iraque há muito tempo. O Iraque tem que ser um país integrado e soberano para que possa ter paz internamente e com seus vizinhos", disse.
Números
A Comissão Eleitoral Iraquiana divulgou na quarta-feira os números finais para as eleições.
Os 7.655 candidatos – que competem por 275 assentos no Parlamento – estão divididos em 307 entidades políticas, agrupadas em 19 coalizões.
Os mais de 15,5 milhões de iraquianos habilitados a votar terão a disposição 33 mil zonas eleitorais instaladas no país, além de postos de votação em 15 outras nações para os emigrantes.
Os partidos e outras agremiações políticas registraram mais de 230 mil observadores para estas eleições. O número de monitores independentes chega a 120 mil, incluindo 800 estrangeiros.
As principais coalizões na disputa são a xiita Aliança Iraquiana Unida (do primeiro-ministro Ibrahim Al-Jafari), a Lista de Coalizão do Curdistão (do presidente Jalal Talabani) e a sunita Frente de Acordo Iraquiano.
Entre os grupos de mais peso, há ainda duas listas seculares que unem xiitas e sunitas: a Lista Nacional Iraquiana, liderada pelo ex-primeiro ministro (apontado pelas forças de ocupação) Ayiad Alawy, e Coalizão do Congresso Nacional, liderada por Ahmed Chalabi (ex-aliado dos Estados Unidos mas que acabou se desentendendo com os americanos).
Segurança
O governo iraquiano está repetindo as medidas de segurança adotadas durante o referendo sobre a nova Constituição em outubro para tentar promover uma eleição tranquila.
O referendo foi relativamente calmo, com alguns confrontos entre forças americanas e insurgentes, mas sem ataques que provocassem grandes perdas de vidas.
O governo proibiu a circulação de carros sem autorização especial, fechou as fronteiras internacionais, restringiu as viagens entre as províncias dentro do país e estendeu em três horas o toque de recolher.
As medidas já entraram em vigor na terça-feira e continuam até domingo.