13 de dezembro, 2005 - 10h11 GMT (08h11 Brasília)
Marcia Carmo
enviada especial a Santiago
O presidente do Chile, Ricardo Lagos, está terminando seu mandato com imagem positiva superior a que possuía quando assumiu o cargo, em março de 2000.
Aos 67 anos, Lagos é aplaudido por onde passa e foi chamado de "lindo", durante um programa de televisão exibido às vésperas do primeiro turno das eleições.
"É meu pai já recebe até cantadas", brincou o filho do presidente, Ricardo Lagos Weber.
Ricardo Lagos entrega o cargo em março e será lembrado, segundo analistas, pelas obras públicas que realizou e pelos acordos comerciais bilaterais que assinou com grandes potências como os Estados Unidos e a China.
Tolerância
Além da abertura ele promoveu uma reforma constitucional, eliminando quase todas as chamadas "amarras" da era de Augusto Pinochet, incluindo cadeiras biônicas para o Senado.
Em seu período, também houve o fim da proibição do divórcio no país e a abertura de documentos secretos dos tempos da ditadura.
A frase mais ouvida, entre integrantes do governo, é a de que Lagos deixa um país "mais tolerante".
País de maioria católica, o Chile foi um dos últimos da região, a fazer campanha pelo uso de preservativo para evitar a Aids.
Sucessor
Para alguns analistas, as mudanças feitas por Lagos tornarão muito difícil que seu sucessor consiga realizar tantas mudanças como ele.
O jornal El Mercúrio, o mais influente do país, diz que dificilmente outro presidente poderá igualar Lagos porque seu mandato ocorreu num momento de expansão econômica mundial, favorecendo a venda dos produtos chilenos ao mundo (vinhos, frutas e outros).
Mas o jornal chileno diz ainda que Lagos estabeleceu as principais obras públicas para os próximos anos, com contratos que durarão anos e que deixará adiantadas as negociações dos próximos acordos bilaterais de comércio.
E que também reduziu o mandato presidencial de seis anos para quatro anos.
"Assim, é quase impossível que seu sucessor consiga fazer o que ele fez em seis anos", escreveu o jornal chileno.
Amarras
Analistas do país recordaram que sua idéia inicial era permitir a reeleição – que não está prevista na Constituição.
Mas ele não conseguiu maioria no Congresso Nacional para aprovar a medida.
Os mais críticos dizem que o capital político de Lagos inclui a redução dos índices de pobreza, mas, como ele mesmo reconheceu, ficará para o sucessor tentar eliminá-lo ou reduzi-lo ainda mais.
Atualmente, 18% são pobres.
"Um senhor me abraçou e me disse: 'Presidente, sou um aposentado'. Sei o que ele quis me dizer, que não foi atendido por minhas medidas. Ainda há muito a fazer pelos excluídos no Chile", disse, emocionado, assim que votou no primeiro turno das eleições presidenciais.
O sistema de previdência social do Chile, baseado nas chamadas AFPs (Administradoras de Fundos de Pensão), tem merecido críticas da oposição e da situação, que exclui, por exemplo, autônomos ou aqueles que, por falta de emprego, interromperam a contribuição.
Além desta pauta, ficará para o próximo presidente chileno a “amarra” deixada por Pinochet e tão criticada por Lagos – o chamado sistema “binominal” para o pleito legislativo, que exige a eleição de um candidato de cada partido por cada lugar, matemática que na sua opinião prejudicou a base governista, chamada de “Concertación”.
Essa, aliás, é outra herança de Lagos.