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12 de dezembro, 2005 - 14h21 GMT (12h21 Brasília)

Denize Bacoccina
de Washington

Abertura total daria US$ 500 bi aos EUA, diz estudo

A liberalização total da economia mundial, com negociações bem sucedidas através da Organização Mundial do Comércio (OMC), daria aos Estados Unidos um ganho adicional de US$ 500 bilhões, ou o equivalente a R$ 5 mil para cada família americana.

O ganho é baseado na redução dos preços para o consumidor americano, que teria a possibilidade de comprar produtos importados mais baratos, e na expansão das empresas americanas no exterior.

Os cálculos são do economista Gary Clyde Hufbauer, do Instituto de Economia Internacional. Outro estudo, de três economistas da Universidade de Michigan, conclui que a eliminação de todas as barreiras renderia aos americanos um adicional de US$ 497 bilhões, enquanto o Japão ganharia US$ 402 bilhões e a União Européia US$ 688 bilhões.

Os países da América Central, América do Sul e Caribe teriam um ganho bem menor, de US$ 59 bilhões, o equivalente a 3,5% do PIB. Nos Estados Unidos, o crescimento seria equivalente a 5,5% do PIB.

Com o impasse nas negociações, é difícil saber de quanto exatamente será este incremento. Pode ser qualquer coisa entre zero e US$ 500 bilhões”, diz o diretor executivo para o hemisfério americano da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, Mark Smith.

Pela dinâmica da economia americana, o setor de serviços, que cada vez ocupa mais espaço e já responde por 70% da produção, seria o mais beneficiado. Mas os Estados Unidos querem ganhar mercado internacional também nos outros setores que estarão sendo negociados na Rodada de Doha.

A embaixadora Susan Schwab, subsecretária de Comércio dos Estados Unidos, diz que o país tem interesse em todas as áreas: agricultura, serviços e bens industriais. “Podemos ter ganhos em todas as áreas. Os Estados Unidos são competitivos em várias áreas de serviços, de agricultura e de manufaturados. Mas também temos áreas sensíveis”, disse em entrevista à BBC Brasil.

Ela diz que o governo americano quer uma conclusão “ampla e ambiciosa” para a Rodada de Doha. “Para isso é essencial um maior acesso aos mercados e o fim dos subsídios na agricultura, redução de tarifas para produtos industrializados e das restrições a serviços”, diz a subsecretária americana.

Smith diz que as empresas americanas buscam a ampliação de mercado para seus produtos e serviços. “Como o mercado interno americano só representa 5% da população mundial, é importante para as empresas americanas abrir novos mercados”, afirmou.

No setor de serviços, ele vê uma “grande oportunidade” para as empresas americanas. Com a evolução tecnológica, diz ele, não é necessário que a empresa esteja fisicamente presente em todos os países onde atua.

No Brasil, ele diz que os americanos estão muito interessados na área de seguros e especialmente de resseguros, além de serviços bancários em geral. “Este mercado ainda é muito fechado no Brasil e a competição vai beneficiar o consumidor”, diz.

As empresas americanas também teriam interesse em expandir seus negócios na área de tecnologia de informação, em projetos de produção de software, call centers e assistência técnica. Smith diz que os call centers podem se beneficiar da proximidade de horário com os Estados Unidos – em comparação com a Índia, por exemplo – e não vê o fato de poucos falarem inglês no país como um empecilho.

No setor industrial, que representa 25% da economia americana, as empresas contam com a redução das tarifas de importação para aumentar as exportações não só de produto acabado como também de componentes para a produção nacional. “Temos que pensar que o mundo está mudando, a produção hoje acontece em escala mundial, e as regras comerciais nem sempre reconhecem estas mudanças”, diz.

Lory Wallach, diretora do Global Trade Watch, uma organização que defende os países menos desenvolvidos nas negociações comerciais, diz que o Brasil é o país que mais tem a perder com a abertura nos setores não agrícolas, porque entre os países em desenvolvimento é o que tem uma indústria mais avançada, embora não o suficiente para competir com Estados Unidos e China.

Entre as empresas americanas de serviços, ela diz que o maior interesse está nas áreas de energia, construção, serviços financeiros, incluindo seguros, serviços de saúde, varejo e comunicações e mídia.

“No setor de serviços de saúde, por exemplo, as empresas americanas têm condições de entrar e dominar totalmente o mercado local. E isso não vai ser bom para o país”, afirma.

Este também é o setor que mais investe em lobby em Washington para convencer o governo americano a negociar acordos favoráveis às empresas da área.

De acordo com a Political Money Line, uma empresa que organiza informações oficiais com os gastos com lobby – uma atividade legal nos Estados Unidos – o setor de saúde lidera a lista dos que mais desembolsam recursos. Somente no primeiro semestre deste ano foram US$ 154 milhões.

Em seguida vem o setor de comunicação e tecnologia, com gastos de US$ 132 milhões no mesmo período, finanças e seguros, com US$ 120 milhões e transporte, com US$ 73 milhões. No total, os gastos com lobby no governo federal somaram US$ 972 milhões no primeiro semestre deste ano.

“O setor de serviços é o que mais gasta em lobby, mas a influência da agricultura no Congresso é maior”, diz Wallach.