10 de dezembro, 2005 - 07h50 GMT (05h50 Brasília)
Marcia Carmo
Enviada especial a Santiago
O filho do presidente chileno Ricardo Lagos, Ricardo Lagos Weber, defende que o sucessor do seu pai realize, o quanto antes, uma reforma do sistema eleitoral para “livrar” o Chile das “últimas amarras” deixadas pelo ditador Augusto Pinochet.
Em entrevista à BBC Brasil, Lagos Weber, que é porta-voz e estrategista da área internacional da candidata presidencial Michelle Bachelet, disse que Lagos reformou a Constituição da era Pinochet, mas não conseguiu apoio suficiente no Congresso Nacional para modificar a legislação eleitoral.
“Essa é uma pendência que ficará para o próximo presidente”, admitiu. “O sistema eleitoral chileno é esquizofrênico”, afirmou Lagos Weber, às vésperas da eleição presidencial.
Segundo ele, o governo Lagos conseguiu maioria para todas as reformas, mas a direita não quis apoiar o fim de uma medida que a beneficia há anos.
Sistema binominal
O chamado “sistema binominal” funciona para as eleições de deputados e senadores.
Na prática, trata-se da eleição de dois representantes por cada distrito e sua principal característica é permitir representação parlamentar idêntica às duas primeiras maiorias.
Essa matemática vem recebendo críticas cada vez mais constantes desde o retorno da democracia no Chile, em 1989.
Lagos Weber, Bachelet e cientistas políticos de peso, como o professor Manuel Antonio Garretón, da Universidade do Chile, acreditam que esse regime não reflete a atual realidade do voto chileno.
Com o sistema, a direita continua fortemente representada no Congresso, mesmo quando os presidentes mais votados foram, em tempos democráticos, de centro-esquerda.
Este é o caso específico da Concertación (coalizão de Lagos), que venceu todas as eleições presidenciais até agora e é obrigada a negociar suas medidas à exaustão, especialmente no Senado, onde metade dos parlamentares são de direita.
Ministério?
Lagos Weber, que tem 43 anos, está cotado, segundo a imprensa chilena, para ser o ministro das Relações Exteriores, caso a candidata vença as eleições deste domingo.
“A definição de cargos não pode ser assunto meu, mas da candidata quando chegar à Presidência”, desconversou.
Advogado e economista, com doutorado em Cambridge, o filho de Lagos foi diretor de assuntos econômicos e multilaterais do governo atual, cargo em que negociou acordos comerciais com os Estados Unidos, entre outros países.
Mas ao falar sobre Pinochet, Lagos Weber insiste que a reforma do sistema eleitoral será decisiva para complementar o processo democrático no Chile.
A promessa de Bachelet, candidata à frente nas pesquisas de opinião, é modificar esta medida.
Segundo Lagos Weber, isso será possível porque depois de mais de 15 anos de democracia, a direita também mudou sua visão.
Principalmente, destacou, depois que a Justiça revelou as contas bancárias secretas e milionárias de Pinochet no exterior.
“Pinochet está sendo processado por crimes contra os direitos humanos e roubo de dinheiro”, lembrou.
“Sempre se soube de seus crimes contra os direitos humanos, mas a direita só lhe deu as costas depois de confirmado que ele roubou dinheiro”, atacou.
Hoje, disse ele, o mais importante é que Pinochet “faz parte do passado”.
O filho do presidente Ricardo Lagos afirmou que até dois ou três anos, os seguidores do ex-ditador faziam fila para parabenizá-lo no dia se seu aniversário.
Mas agora, ressaltou, não é mais assim. Ricardo Lagos Weber aproveitou para criticar os candidatos da direita e opositores de Michelle Bachelet, neste domingo.
“A direita não tem projeto e a prova é que está dividida com dois candidatos e numa mesma frente que se chama Alianza”, disse referindo-se aos presidenciáveis Sebastián Piñera, do RN, e Joaquín Lavín, da UDI, partido de Pinochet.
Além de votar para presidente (no Chile não existe candidato a vice), os chilenos votarão para renovar a Câmara dos Deputados e metade do Senado.
O governo precisa da maioria para “se liberar” das amarras de Pinochet e para implementar medidas que podem contribuir, segundo Manuel Antonio Garretón, para reduzir a concentração de renda.
“Pinochet deixou uma Constituição que permite uma participação de 15% do Estado nas decisões nacionais. Essa é só uma das medidas que ainda impedem que o país resolva seu drama da concentração de riquezas, que junto com o Brasil está entre as maiores da América Latina, que já é uma região injusta”, destacou Garretón.
Para o analista, a agenda do próximo presidente deverá dar um norte ao país, após a era “pós-pinochetista”.