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29 de novembro, 2005 - 07h52 GMT (05h52 Brasília)

Do Lixo ao Luxo

Rent, o filme, estreou esta semana. Um musical, concebido na década de 80, é sobre um grupo de amigos pobres, boêmios e românticos, entre eles quatro com AIDS.

Uma versão americana da opera La Bohéme, de Puccini. Em vez de tuberculose, a doença é a Aids, o século é o 20 e o cenário é o mesmo da concepção, o East Village, em Nova York.

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O bairro é um dos mais antigos da cidade mas o nome surgiu nos 60, um truque de marketing das corretoras para associar o área ao vizinho e venerável West Village.

Deu certo, mas, até a década de 80, o East Village era dos drogados, desempregados, hippies, sem teto, artistas plásticos, latinos, poetas e sonhadores. Lá surgiram os beatniks e os yippies, antecessores dos hippies.

Foi na rua St. Marks Place que Andy Warhol criou Exploding Plastic Inevitable, que Velvet Underground fez o primeiro show e onde o poeta Allen Ginsberg bebia com seus amigos radicais.

O bairro abrigava quase sessenta galerias de arte e centenas de pintores, entre eles os cariocas Rubens Gershman e Helio Oiticica.

Bons cafés e restaurantes medíocres. Aluguéis baratos. Morei lá cinco anos, na rua três, vizinho de parede do minimalista Philip Glass, mas nunca ouvi o piano dele.

Ouvia sempre, no meio da noite, as sirenes da polícia que dava batidas freqüentes na sede do grupo de motoqueiros Hell's Angels, vizinhos de quarteirão.

Philip Glass continua lá, mas graças à polícia e aos preços, aquele East Village desapareceu.

Não há mais galerias de arte, nem artistas, nem drogas, nem radicais. Foram substituídos por estudantes da caríssima New York University e jovens em começo de carreira.

Um modesto estúdio aluga por US$ 2 mil e o valor médio de um apartamento é de US$ 1,3 milhão.

Em apenas dez anos, o bairro de Rent virou luxo, mas a alma foi para o lixo.